sábado, 13 de agosto de 2016

Deu no THE NEW YORK TIMES: Mandatário Golpista dá Pinta no Salão

Dr. Temer achou que poderia sair do armário e passar incólume, mas o mundo todo viu...

                   
Uma semana atrás, duas personalidades brasileiras machucadas e fragilizadas pelo tempo participaram destacadamente da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro; cada uma à sua maneira. Foram elas o mundialmente conhecido cirurgião plástico Ivo Pitanguy, e o canhestramente conhecido golpista travestido de presidente, Michel Temer - que não tem votos suficientes nem para se eleger administrador do Jaburu, mas estava lá; seu nome é Trabalho.

Enquanto Dr. Ivo, entrevado numa cadeira de rodas pelas circunstâncias da existência, era aplaudido pelos populares, Dr. Michel, mumificado num sarcófago moral, era vaiado em pleno Maracanã.  Coube ao primeiro carregar a Tocha Olímpica, e ao segundo, suportar no quengo a rejeição nacional exibida em cadeia mundial. Isso porque Dr. Michel, sem ser anunciado (descumprindo bizarramente o protocolo), compareceu a uma festa para a qual sequer fora convidado. O consorte da Marcela sem sorte, porventura representando duzentos milhões de espíritos brasileiramente olímpicos, quis passar despercebido durante a celebração, embora tivesse a (usurpada) incumbência de declarar abertos os Jogos. É um gaiato...

Para um sujeito que acaba de assumir a condição de nossa última esperança antes da cubanização definitiva do Brasil, almejada por petralhas, esquerdopatas, homossexuais, feminazis e indígenas, em geral, eu não consigo compreender por que tanto temer (ops) nesse confronto com as massas. Entrementes, não era para esse cabra estar sendo carregado nos ombros do povo, rampa do Bellini acima? Não era o caso de estarmos assistindo a essa respeitada raposa política (?), incontestável liderança entre seus asseclas (??) e ilibado peemedebista (???) celebrar junto a seus compatriotas o júbilo de se realizar um evento de tal magnitude em solo pátrio, além de nos haver livrado daquele sapo barbudo bêbado e analfabeto e daquela terrorista dentuça gorda, comunista e... Mulher? Ou estou enganado?

Alguém em sã consciência colocaria a foto dele na parede (sem contar a mãe da Marcela)? Cadê as faixas de “Viva Temer”, “Temer Go” e “Agora o mundo vai nos Temer”? Ou mesmo os memes viralizantes da rede, estilo “Temer, você não é Pokémon, mas está na minha mira ;)”? Cadê as putas cabeças pensantes da cultura nacional enaltecendo nosso redentor, enlevados pelo estoicismo necrotérico daquele ser grisalho que vem ao socorro de toda a gente de Bem, a homenageá-lo em músicas, cantigas, quadros, charges, peças teatrais, panfletos, folhetos ou a desgraça que for? Cadê tudo isso, meu deus?

Ao contrário, vejo gente nas ruas sofrer arbitrariedades por parte de uma polícia decadente, apenas por protestar contra o despropósito político-institucional ora em curso no Brasil; vejo cidadãos inofensivos nas arquibancadas que explicitam o repúdio popular ao golpista sendo retirados de arenas, estádios e ginásios olímpicos como se perigosos mentecaptos fossem, à base de brutalidade, intimidação, repressão e autoritarismo. Em tempo: a justiça, na última quarta-feira, determinou que se permitissem manifestações pacíficas no Parque Olímpico.

E o que dizer do brasileiro que acreditou que “tudo isso” era, de fato, um pacto republicano e suprapartidário selado entre homens honrados e decididos a “colocar o país nos trilhos” (i.é., dar um jeito naquela corja petista)? Melhor; o que esse cidadão tem a dizer, agora que o Mandatário-mor da nação deu pinta no salão? O que esse brasileiro com muito orgulho e muito amor (e que não desiste nunca, mesmo morando em Miami) sentiu ao ver o líder dos “seres humanos direitos” pagando king-kong, passando recibo de golpista via satélite? Como explicar aos filhos pequenos que nosso Comandante-em-Chefe tem vergonha de aparecer ou falar em público, preferindo as sombras para esconder a cara azeda de mictório de boteco? Como explicar um discurso presidencial de 10 segundos, sem qualquer menção meritória à população carioca ou aos mais de 11.000 atletas que tanto se sacrificaram para que a festa ocorresse, tornando o Brasil o foco das atenções planetárias? Difícil, né?...

Meros dois dias desde então, Pitanguy já não estava entre nós. Seu gesto de levantar a tocha foi um adeus ao mundo e à vida. Morto no dia posterior e cremado no seguinte, não deixou rugas ou cicatrizes, conforme seu ofício lhe impunha. Não cheguei a lamentar, senão por não haver sido Dr. Temer a embarcar em Aqueronte, e cheguei mesmo a celebrar o fato dela – a morte – um dia abraçar a todos.

Nos espelhados corredores palacianos ou dos salões do Congresso da República, a imagem de Dr. Temer nunca se reflete. Agora, diante de uma audiência estimada em mais de três bilhões de pessoas, encarna o Mr. M e envergonha o povo brasileiro ao querer dar uma de invisível, sem magia ou encantamento, mas envolto em pura patifaria. De repente, um gesto normal para quem, no íntimo, não passa de um morto-vivo cuja alma não tardará a ser conduzida por Caronte ao esgoto História, lembrado como alguém que melhor seria se não houvesse existido. Oxalá, assim seja!

#ForaTemer

photo by Marcya Reis

sábado, 19 de setembro de 2015

Sei que Nada será como Antes


Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Fazer quarenta anos não é nada de muito extraordinário, a não ser que sua mulher o presenteie com um filho; aí, sim: você estica a boca até o limite que o sorriso pode alcançar e se sente como uma criança que ganha o melhor brinquedo que a vida poderia te dar.

Ele retribui com sete noites do cão, sem deixar que os pais descansem, durmam ou pestanejem, embora nem a tortura da vigília forçada os faça esmorecer. Nem as quatro fraldas de totô trocadas num espaço de 1hs59’34’’, em meio à interminável madrugada de choros e mamadas, os impede de, a todo tempo, dizer “que lindo é o nosso filho!”.

Ele tem a cara daquele cara que a gente já conhecia desde há tempos, mas não sabia. Ele se parece com a gente em alma – ou no dedão do pé! – e tem uma cumplicidade embutida que já vem de fábrica, turbinada. O cheiro (ahhhhhhhhhhhhhhhh, o cheiro...), a gente quer roubar todo! Aspirar cala milímetro cúbico daquele cheirinho leitoso de amor que ele exala pela boquinha, ou aquela porçãozinha de ar inocente que lhe sai às ventas, tão de batatinha como as do papai. Acariciar os pezinhos, bochechar as costinhas e dar beijinhos de esquimó. Massagear todo aquele corpinho enquanto olha para ele e pensa em como ele vai ser feliz... Ah, se vai!

A atenção vem acompanhada de um berço morninho e de palavras sempre afetuosas de carinho. Até o choro encanta. Chora bonito, gostoso; tem saúde, pulmão! Mas ao perder a noção do tempo encarando-o, pensamos no futuro dele. Não que nos preocupe a crise financeira mundial. E amor, a bem dizer, não lhe falta. Leite escorre e farta. O que preocupa é a humanidade; nossos tempos; o pensamento menor.

Meu filho veio ao mundo num momento conturbado em termos civilizatórios, tanto quanto aquele em que eu nasci, porém potencialmente mais violento, traumático, invasivo, sectário. Preocupa esse mundo que nos espiona o telefone e a correspondência, e que nos soca a cara enaltecendo novos heróis de esportes que em nada se parecem com aqueles que idolatrávamos.

Preocupa o número de vizinhos raivosos, pessoas irascíveis e amiguinhos de colégio intolerantes. Preocupa esse mundo de pouca consciência histórica e política, mas de muita atração por vampiros, zumbis, músculos, depilação e ostentação. Preocupa o mundo da aparência, do selfie, egoísta, vazio; da não-ideologia e da perda de valores - sem falar do Flamengo que há quase quatro décadas não ganha a Libertadores.

Preocupa a indústria travestir de “novos tempos” tudo aquilo que lhe seja pertinente quando o assunto são os novos hábitos de consumo. Preocupa o tecnicismo, o imediatismo, a certeza irrefletida do fascismo. Preocupa esta nova maneira de dialogar, não dialogando, cinicamente. Preocupa o aparelho eletrônico que nos conecta e nos aliena, que nos deprime e nos supre a carência, ainda que virtualmente. Preocupa o fim do namoro no sofá, no portão, de pegar na mão. Preocupa o fim do romantismo.

Ao mesmo tempo, tenho a sensação de ver brotando “musguitos en las piedras”, cheios de energia renovadora, aqui e acolá, como se um exército anárquico, colorido e transformador estivesse em processo de gestação, o qual meu filho certamente fará questão de integrar. E chego à conclusão de que tenho o papel de quem deve preparar um ser humano para fazer desta, uma sociedade afetivamente viável. Lamento por não oferecer a ele a realidade com a qual sonhei, embora ele represente para mim a certeza de que a vida apenas tenha se iniciado, e que ainda tenho todo o tempo do mundo para ver esse sonho realizado.

Seja bem-vindo, meu filho, afinal, este planeta é lindo! Os seres humanos é que são meio bobos...

foto: marcya reis

domingo, 15 de março de 2015

SOS Militares

Saudades da ditadura? Nós somos da Pátria a guarda, fieis soldados, por ela amados!... 

                                                       
Em toda a sua história, o Brasil jamais ansiou tanto por uma data como por aquele quinze de março; nem quando “conquistou” a Independência, nem quando se tornou uma República, e muito menos quando venceu sua primeira Copa do Mundo. Apesar de pontos de inflexão históricos, nenhum teve a capacidade de mobilização criada pela expectativa da iminente redemocratização do País, em 1985.

Detentor de uma barba desgrenhada com pêlos brancos à larga, bem me lembro daquela longínqua manhã. O dia amanhecera fresco, e ainda muito cedo, de roupão e calção de banho, além de muitos tremores de frio, seguia com meu pai rumo ao Parque da Água Mineral, para uma natação matinal. Apesar do meu temor pela temperatura relativamente baixa, havia algo no ar que fazia daquela experiência algo mais solene que um mero mergulhar no frio profundo daquelas águas cristalinas: dali a pouco, tomaria posse Tancredo Neves, o primeiro presidente civil em 21 anos, sepultando um dos mais vergonhosos e autoritários períodos de nossa história – o tempo das fardas lúgubres e de suas taciturnas figuras se encerrava com aquela aguardada alvorada.

Embora eu fosse um pisquila que sequer alcançara os dez anos, tinha razoável noção sobre a vida política do país, e escutava tudo o que meu pai tinha a dizer, com grande expectativa. A luta pelas Diretas, poucos meses antes, despertara a população brasileira para uma consciência cidadã coletiva, precipitando a experiência política também entre os mais jovens. Havia mais de duas décadas, a pedagogia escolar brasileira impunha às crianças a aceitação ao sistema, e nunca o questionamento, por meio de disciplinas como Organização Social e Política do Brasil ou Educação Moral e Cívica. Ao mesmo tempo, estudantes secundaristas e universitários eram presos, espancados ou mortos.

Apesar da derrota da emenda Dante de Oliveira, ganhamos no Colégio Eleitoral, poucos meses depois. E digo ganhamos porque o Brasil inteiro se fazia presente naquele plenário quando Tancredo Neves alcançou a maioria de votos, derrotando Paulo Maluf e a direita brasileira. O hino nacional, entoado na sequência, era escutado ecoando dentro e fora do Congresso Nacional, a plenos pulmões, árduas lágrimas e intensa comoção. Após ser instrumentalizado pela ditadura como objeto de um ufanismo arbitrário, o hino vinha readquirindo seu real significado desde os comícios do ano anterior. A sensação de pertencimento e orgulho nacional atingia todas as classes e (quase) todos os partidos políticos, pois, acima de tudo, havia a certeza de que o Brasil se humanizava com a redemocratização.  

Enquanto caminhávamos à beira daquela piscina natural cravada no cerrado brasiliense, era possível sentir uma atmosfera renovadora permeando todo o ambiente, em sintonia, vislumbrando os novos e bem-vindos tempos aos quais se referia Cazuza; o dia, de fato, nascia feliz! As pessoas sorriam quando se cumprimentavam; um sorriso diferente, mais leve e mais solto, que vinha lá de dentro. Ninguém falava de lado, ninguém olhava pro chão.

Foi quando um colega de meu pai veio em nossa direção e deu a impensável notícia: - Já ouviu o rádio? Parece que Tancredo foi internado às pressas; periga não haver posse...

   - Quê?!... - Meu pai ficou incrédulo e, com expressão grave, típica de quem está maquinando uma ideia, retrucou: - Isso só pode ser coisa dos milicos... Não querem largar o osso de jeito nenhum! – Motivos para preocupação havia, e de sobra...

O martírio e as incertezas perduraram pelo resto do mês, indo findar no dia dos mártires, a 21 de abril, quando a morte do ex-futuro Presidente foi anunciada. O calvário serviu para unir ainda mais a nação, que chorou como se, com Tancredo, morresse também nossa esperança de ver erigir a verdadeira democracia brasileira. O luto era amplo, geral e irrestrito.

Passados trinta anos, também em um 15 de março, parcela da população brasileira acordou imbuída de um sentimento que, dizem – e eu não consigo entender o porquê – assemelha-se ao de então. Milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra o que consideram o pior panorama político já enfrentado pelo Brasil, visando apear a “quadrilha comunista” que ocupa o “Poder”.

Para mostrar que a bagaça é real, vestiram a camisa da seleção brasileira (Nike? CBF? Ricardo Teixeira?) e foram para a rua vociferar contra o governo e o PT, mas também contra ateus, feministas, maconheiros, umbandistas, nordestinos, abortistas, haribôs, cabeludos, Karl Marx (?) e até contra o facínora corruptor de mentes juvenis, o professor e educador Paulo Freire (???). Pediam o impeachment da Dilma, além da volta da ditadura militar em cartazes escritos, vejam vocês, em inglês. Trocaram o “Yankees, go home!” pelo “Miami, here we go!” Até a suástica estava entre os emblemas ostentados pelo coro dos descontentes. E mandavam todo aquele que discordasse para a “Cuba que o pariu!”.  Tudo “em família, pacificamente”, como frisavam os jornalistas da Globo News.

Havia gente jurando que o Lula é o anti-cristo; havia gente pensando que o Aécio assumiria a Presidência, em caso de golpe; havia gente contra o aborto e a favor da pena de morte (????); havia bonecos de petistas sendo enforcados num viaduto; e também quem imaginasse que estava ali para fazer história, mostrando que é brasileiro, com muito orgulho e muito amor. Mas não havia hinos históricos que refletissem qualquer realidade social, qualquer luta ou momento relevante da história brasileira.

O que havia, em contrapartida, era um grande vazio cidadão: nenhuma periferia, nenhuma organização indígena, nenhum movimento social de base, nada de representantes das classes artística, cultural ou intelectual minimamente relevantes. As fotos, ao contrário, revelam pessoas majoritariamente brancas, felizes, bem vestidas, tomando Heineken e Budweiser, enquanto cantam o hino nacional como prova inequívoca de seu patriotismo e compromisso para com o país; uma "gente direita”, “do bem” e, sobretudo, cristã. Vislumbrando a enxurrada de imagens produzidas pela mídia, nota-se que não há a menor diferença entre os manifestantes de hoje e aqueles brasileiros que tiveram acesso aos estádios (desculpem, arenas) durante a última Copa da FIFA, pois eram todos, majoritariamente, representantes de uma única (e ultrajada) classe econômica.

Sair às ruas é, mais que um direito, um dever de todo e qualquer cidadão que almeje mudanças. Mas ignorar a história e clamar por um estado policial é o maior desrespeito que poderia haver contra a democracia e a população brasileiras. Que me desculpem os castos e bem intencionados que cerraram fileiras nos protestos, mas a essência da mensagem produzida pelos eventos deste dia 15 é das mais elitistas e mesquinhas que se poderia obter. Se o objetivo dos que protestam é aperfeiçoar o modelo democrático e exigir respeito à Constituição, então mandaram muito mal, pois sectarismo não se combate com sectarismo. A realidade, minha gente diferenciada, está bem além daquilo que se pode ver pela tela de uma TV.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Conectados e Desunidos

Quem não quer ser feliz?

Escuto no rádio que, atualmente, para conectar-se à rede, “não existe mais aquela coisa de ir ao quarto e ligar o computador que ficava sobre a mesa”, sendo “praticamente impossível encontrar alguém que não carregue o seu ‘ismartifone’, no bolso”. Você, dedicado leitor, está carregando o seu? Então, parabéns: você é um cidadão conectado, dito moderno!

Se há ainda seres primitivos que abram mão deste ente onipresente da contemporaneidade, não importa; o que realmente me intriga é saber se a dinâmica alucinante imposta pela tecnologia efetivamente nos une, além de nos conectar – coisas bem diferentes, ainda que a publicidade nos convença alegremente do contrário. Senão, vejamos...

No restaurante, olhamos à volta e percebemos que é quase impossível encontrar quem não esteja futricando seu aparelhinho. Pode ser no bolso, com o rabo do olho; apoiado no copo de suco; ou de modo explícito, como a mãe que, em vez de conversar com a filha sobre o dia na escola, empenha atenção integral ao seu telefone inteligente – manuseando-o de tal forma que a tela da engenhoca acaba substituindo a cabeça da criança em seu campo de visão, obrigando esta a almoçar olhando para a capa cor-de-rosa do mimo da mãe... Coisa bem triste de se ver.

Atmosfera de exclusão semelhante encontra o sujeito que vai buscar a caranga na oficina, e se depara com três mecânicos que, em vez de umas palavras sobre futebol, sobre a desfaçatez dos políticos brasileiros, ou um comentário libidinoso sobre a boazuda que passa, contemplam um vídeo pelo celular, num volume alto, agudo e irritante. Sem troca de olhar, sem bom-dia, nada. A experiência se resume à espera da conta, sem que nenhuma individualidade se coloque de modo atraente, sedutor, interessante ou mesmo digno, posto que indiferentes à presença alheia. O sujeito entra e sai sem ser notado, sem oportunidade de enriquecer a vida dele ou a dos outros. O videozinho viral, a putaria, a bizarrice, a fofoca, tudo estará sempre disponível, enquanto que o momento... Já passou, é único. Foi-se.

O mundo real se revela cada vez menos interessante ao indivíduo contemporâneo. Nos ônibus, nas academias, nas salas de espera ou nos encontros religiosos, esqueça as cantadas de praxe, pois ninguém terá olhos para você, preocupados que estarão em atualizar seus perfis.

Certa vez, em Sampa, numa cantina, desfrutava um desses pratos que te fazem babar só de pensar, e me divertia com minha mulher, celebrando o gastronômico instante ao tilintar de umas boas taças de vinho. De momento, percebi que, mesmo em meio a uma atmosfera romântica e aconchegante, havia casais entregues aos seus apetrechos eletro-digitais, divulgando a felicidade rede afora, a todo instante, a noite toda, sem parar... Não conversavam entre si; estavam muito ocupados para isso! Sem falar das crianças, alvos primordiais, totalmente alheias a tudo o que fosse real, vidradas em joguinhos irritantes, sempre em dolbysurround. Crianças que não sabem observar a realidade: o porvir promete fortes emoções!

Em ambientes e momentos dos mais improváveis, vê-se toda a gente aderindo sem contestação à sugestão do fabricante, plugadas full-time, como se a satisfação existencial de cada um dependesse da reiterada aprovação de seus avatares on-line. Nessa toada, uma operadora promete uma vida de constante diversão, “sem ter de se preocupar com mais nada”!...  E por acaso, nosso objetivo, individualmente, é passar o maior tempo possível alienado, exibindo nosso ego, como seres infantiloides eternamente presos à puberdade? Não lhes parece um conceito muito tosco de civilização?

Adotamos paulatinamente a tecnologia como ponto de partida e chegada das relações humanas. É como se um aparelho de última geração nos tornasse, inexoravelmente, famosos, queridos, admirados, desejados, sexies, invejados, comunicativos e, sobretudo, felizes (além de especialistas em fotos e vídeos de aventuras radicais). Mesmo não fazendo o menor sentido, os cidadãos deste século parecem acreditar nessa bazófia. Do contrário, por que alguém satisfeito com sua vida perderia tanto tempo preocupado em saber o que estão pensando dela, dando conta do que faz ou deixa de fazer, do que come, do que gosta e do que odeia? Que tipo de sociedade aceita isso como um comportamento normal, que não uma sociedade regida por aparências e carências agudas, atropelada pelo ritmo irreflexivo da atualidade? Como aprofundar-se numa relação verdadeira, se estamos afogados no raso mar do superficialismo existencial?

Acredito que o ser humano precise de tempo para processar sentimentos, contextos, situações e experiências que, de modo geral, delineiam e alimentam sua existência. Valorizo uma carta há tempos esperada, um artesanato dedicado e uma comida feita com afeto, mesmo que demorada. Não é porque a fibra ótica torna tudo mais rápido que temos de obedecer às necessidades da fibra ótica. Não faz sentido pautarmos nossas relações sociais pela impessoalidade do ritmo de produção que só interessa ao mercado. Afinal, estar atualizado significa comprar um aparelho novo a cada temporada. E viva o esgotamento dos recursos naturais planetários!

Posso “ter o mundo em minhas mãos”, mas para que? Porque, pensando bem, não quero estar eternamente plugado a nada; nem me comunicar do espaço com a Terra; ser bisbilhotado, monitorado, espionado ou classificado; dar satisfação de onde fui, com quem fui e do que fiz (nem para a minha mulher, imagine para a CIA!); ter de baixar “aplicativos grátis” para me expressar em programas de televisão, portais da internets e blogs do mundo inteiro; e, muito menos, assistir “meu programa de TV predileto, a qualquer hora, em qualquer lugar”. Enfim, não quero que um software tome conta da minha vida, intrometendo-se em meu cotidiano, por meio de gemidos, miados ou assovios, desviando e superficializando minha atenção, enquanto minha mente poderia estar obtendo e processando conhecimentos verdadeiramente orgânicos.

Quanto mais rápido o gado é tocado, menos ele reflete sobre seu destino, no matadouro. O que me lembra essa gente esbaforida que se atropela por  um simples computador, para concluir que definitivamente meus pais não me educaram para este mundo; eles jamais imaginaram que a vida fosse se tornar tão irracional.


foto&arte de joão sassi


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A Culpa é do Sartre

Marina Silva conta com o segundo turno para competir em pé de igualdade com a candidata petista.

Dilma não se aguenta mais em pé. Está exausta e rouca; no limite das forças. Sorrir é um estorvo. Quando concordou em se reeleger, disseram-lhe que seria sopa no mel. Bastaria abraçar o Capeta e falar o que os marqueteiros mandassem e pronto; tudo se resolveria no primeiro turno. Ela, que acha um saco esse negócio de ser presidenta, topou meio a contragosto: “Na falta de opção, vai eu mesmo, uai!” – ponderou. Mas o que nem ela, nem o Lula, nem toda a companheirada poderia imaginar é que, na reta final, teriam de se jogar na campanha, de corpo e alma, como se não houvesse amanhã, sob o risco de o projeto petista ir pras cucuias.

Culpa do PSDB? Culpa da Globo? Culpa da FIFA? Não; culpa da Marina Silva.

É, a Marina, aquela que nunca escondeu sua gratidão a Lula por ele haver se metido nos cafundós do Acre, quando aquilo era terra de ninguém, no início dos anos 80, e acreditado no movimento dos seringueiros, então capitaneado por Chico Mendes. A mesma Marina que se tornou, aos 34 anos, a mais jovem senadora da República, tendo sido reeleita com mais de 70% dos votos, e que, por competência e caráter, passou a ser referência moral para seus pares petistas. Essa Marina, escolhida Ministra do Meio Ambiente pelo próprio Lula como uma espécie de “selo verde” do governo que nascia, e que, enquanto empunhava a bandeira e os ideais sócio-ambientais do partido, era apunhalada pelas costas em reuniões interministeriais, conchavos políticos da mais baixa estirpe e tenebrosas transações.

Foi Sartre quem disse que temos todos, o direito (e o dever) de contestar uma revolução caso ela degringole e se distancie de sua ideologia. E que se nossas críticas não ensejarem resultados palatáveis, há de se apartar e buscar a renovação das idéias.

A população brasileira, maior interessada no êxito do processo revolucionário inaugurado por Lula, 10 anos antes, criticou veementemente o ritmo do samba, em junho de 2013, ao passo que o poder estabelecido tratou de baixar o cacete nos foliões descontentes. Seriam todos coxinhas anti-petistas, os presentes? A partir dali, surgia nas redes sociais um tipo de perfil agressivo e fascista, até então desconhecido: se você criticar o Governo da Dilma, você é um bosta. Se você não confia no politburo, então você é reacionário e traidor.

Tratada como empecilho e sem voz dentro do próprio partido, nada mais natural para Marina do que seguir seu rumo, serenamente, amparada por suas convicções, e também por considerável parcela da população brasileira – sem populismo, sem estação de rádio, sem imprensa a seu favor. Ao contrário dos demais demissionários de Lula, saiu pela porta da frente, com audiência aqui e lá fora – todos interessados em saber mais a respeito daquela moça que preferia ter a cabeça cortada a perder o juízo. O nome disso é credibilidade.

A partir daí, revelou-se a face mais escrota da nossa Esquerda. Primeiro, em forma de escárnio, quando Marina recebeu acolhimento no PV; interpretada como uma agremiação nanica que não poderia fazer frente ao maioral do pedaço. Um minuto e vinte milhões de votos depois, as piadas se transformaram em críticas raivosas, com direito a distorções históricas que fariam Stálin se regozijar em sua datcha.

Em vez de considerarem a essência de seu discurso – sustentabilidade, ética e justiça social - seus antigos camaradas preferiram voltar suas cargas contra ela, transformando-a num Trotsky de saias. Logo, Marina estaria sendo acusada de ser uma marionete a serviço do PSDB, da Natura, do banco Itaú e das ONGs internacionais.

Os votos que Marina mereceu, contudo, em vez de virarem objeto de barganha (prática corriqueira, senão obrigatória na política tradicional tupiniquim), transformaram-se em força política e deram início à criação de um partido político novo em sua constituição, estrutura e propósito. Nascia assim a Rede Sustentabilidade que, podendo contribuir com (ou fazer ruir) o jogo político atual, foi providencialmente abalroada antes mesmo de seu voo inaugural, (segundo os nada enviesados critérios da Justiça Eleitoral). À socapa, surgiram aberrações como o partido do Kassab, o do Paulinho da Força e por aí vai, com tudo muito legítimo e bem divulgado, com todas as assinaturas nos conformes e todo apoio que o governo eventualmente precisasse. E a Rede, muito mais ramificada e conhecida, nacionalmente, não. Assaz curioso...

Imaginaram os algozes que Marina fosse carta fora do baralho, e esfregaram as mãos com o céu-de-brigadeiro que os conduziria à reeleição: “Relaxais, companheiros!”. E assim, até riram quando a “missionária sem partido” se prestou à condição de figurante, emprestando sua credibilidade a um Eduardo Campos que, em troca, prometia incorporar a seu projeto de governo a tal da sustentabilidade, tão clamada pela parcela mais ingênua da população – a sonhática. Não havia de ser nada, pois a dupla Dudu-Mamá não ultrapassava os 10% da preferência eleitoral; “que esperneiem, já que ninguém os ouve...”.

No entanto, o que era tido inicialmente como um desenlace natural (a candidatura presidencial), somente se concretizou graças a essas questões que não se explicam. Alçada tragicamente à condição de cabeça-de-chapa, Marina despertou a fera que devora o espírito democrático da militância petista, bem como dos ocupantes do Palácio do Planalto, sendo, a partir de então, atacada como Judas em Sábado de Aleluia. Entre outros motivos, por “ser” fundamentalista, neoliberal e homofóbica.

Hipocrisia e preconceito jorraram de todas as frentes de batalha, enquanto à militância revolucionária brasileira, pouco importava a verdade dos fatos, contanto que fossem interpretados como tal - Goebbels manda lembranças! Hoje, após dois meses de bombardeios massivos, o estrago está feito e não há mais como remediar... E não falo da figura de Marina, que continua altiva e inabalável, mas daquilo que eu sonhava ser a Esquerda do meu país.

Vi intelectuais e gente muito esclarecida falar coisas improváveis. Vi sangue nos olhos e ira nas palavras e nos argumentos de amigos meus; pessoas muito próximas a mim, que sabiam da verdade, mentiam descaradamente, internet afora, como se o comprometimento com a revolução supostamente em curso justificasse a falta de ética e de escrúpulos. Num piscar de olhos, os eleitores de Marina passaram a ser tratados como gente iludida, utópica e alienada, merecedora dos piores impropérios.
                           
Eis, portanto, que uma nova forma de se fazer política não é mais apenas uma necessidade expressa em forma de marketing partidário ou bandeira eleitoral, senão uma realidade próxima. De nada valem mais de 50 milhões de consumidores nas classes B ou C, se a lógica predatória do Mercado não salvaguardar nossos recursos naturais. De nada vale celebrar a inauguração de uma hidrelétrica enquanto nossos irmãos índios são desrespeitados e a diversidade biológica extinta. De nada vale uma transposição politiqueira se o rio a ser transposto estiver morto. Enfim, de nada vale ganhar uma eleição se o modus operandi de nossa elite revolucionária é tão nefando.

Fico, portanto, com o pensamento de Sartre e em companhia de tantos outros que acreditam na dinâmica transformadora da sociedade, metamorfoseando-se para o futuro e tendo tranquilidade para criticar aquilo que precisa ser arejado, remodelado, refeito. Doravante, as revoluções serão menos autoritárias e mais dialéticas, pois uma liderança política do terceiro milênio não pode prescindir do diálogo para estabelecer a harmonia social.

Que me desculpe a compreensível fadiga presidencial, mas o segundo turno está aí; e Marina, apesar de magrinha, é madeira que enverga, mas não quebra.



foto: joão sassi*

*antropólogo, fotógrafo e blogueiro, atualmente desempregado, escreve neste espaço quando dá na telha e vota Marina Silva Presidente



domingo, 29 de junho de 2014

Crônicas da Copa - É tempo de Copa!

Hermanos colombianos na mira do Brasil
A Copa do Mundo começou!

Cá entre nós, gente do metiê, essa tal “fase de grupos” só serve aos anseios políticos da FIFOTA, para fazer de conta que todo mundo participa da festa e angariar votos. Findadas as preliminares, porém, chegamos aos finalmentes, a fase mais gostosa, que dá aquele friozinho na barriga e um comichão na bexiga, fazendo a machaiada segurar o piu-piu e a mulherada apertar o xibiu.

É quando o cidadão não consegue ir à geladeira buscar uma gelada ou sequer ir ao banheiro dar aquela aliviada. É quando aparece a mãe, a tia, o cunhado, a irmã, o primo e mais uma porrada de gente que nunca se reuniu para ver um jogo, e que agora, juntos, torcem como loucos pela Seleção. É o gol que arrebata, é o empate que maltrata, é a bola no travessão que quase mata, enfarta.

A família volta a ser a célula-mater da Pátria e, como num estádio, quem não tem afeição ou intimidade já se abraça, vibra, pula, fibra! É o abraço suado, embriagado, o calor de quem a gente gosta, ou nunca gostou. Mas é por uma boa causa; é pela alegria. Não com “muito orgulho e muito amor”, mas por amor verdadeiro, por inteiro. Vontade de olhar nos olhos, de gritar, chorar e sorrir juntos. Quase sexual. Vontade nacional.

É tempo de Copa! É tempo de corpo. De pegação de línguas; de línguas úmidas, molhadas, enroladas. É tempo de união entre os povos. Tempo de celebração, confraternização, emoção. É tempo de Copa, pôrra!  

Não dá para perder o bonde e deixar a vida passar porque a banda não toca do jeito que você quer. Se solte! Se deixe! Largue de dureza, hômi! É mês de festa, de São João, quadrilha, Lampião! Se avexe, caba, porque é mês de Copa e ela está ali, piscando pra você, como cavalo encilhado, como uma moça, um afago, um gol escancarado.

Se o Diabo mora ao lado e patrocina o rebolado, se benza e tome banho de ervas para tirar o mau-olhado, mas não se vingue do que nos é tão adorado. Não guarde mágoas do amigo alienado, baba-ovo do Galvão e tiete do Felipão. Releve. Esqueça. Esmoreça e aqueça o coração. É tempo de Copa, meu irmão!

É tempo de uma energia que não rola toda hora. Não faz sentido ser tão rígido, intransigente, brigalhão. É tempo de Copa, cara! Do sofrimento desnecessário, angustiante, redentor. É tempo de vitória suada, nos pênaltis, nos acréscimos, inesperada. Tempo de vitória sofrida. Tempo de vida.


foto: joão sassi

texto originalmente publicado no blog especializado Borogodó Futebol Clube






sexta-feira, 27 de junho de 2014

Crônicas da Copa - Mordidinha no Ombro

Hincha charrúa pronto para pegar o Blatter dicunforça
“For the good of the game!” - é assim que a FIFA alardeia ao mundo suas intenções em relação ao futebol. Portanto, para o bem do jogo, é bom que todos joguem limpo.

Não ria, cético leitor; a FIFA preza pelo fair-play. Prova disso é a exemplar punição sentenciada ao guerreiro charrúa e atacante uruguaio, Luizito “El Conejo” Suárez, por conta de uma mordiscada num cannelloni italiano, seu colega de profissão. Com a cajadada, a toda-poderosa pretende matar dois coelhos: auto proclamar-se a guardiã da bola, além de advertir aos maus elementos que ali as regras existem para ser cumpridas. A entidade parece resoluta em extirpar do esporte qualquer sintoma exacerbadamente humano, projetando no horizonte uma peleja robótica, protagonizada por tão infalíveis e obedientes jogadores.

“O vídeo-tape é burro”, disse Nelson Rodrigues, quiçá o homem que mais compreendeu a alma da gorduchinha. Mas de que adianta emperolar o porco se a dona do jogo, que já não dá ouvidos às tradições da bola, escuta muito menos aos poetas e filósofos dessa Escola? Ela não somente confere as imagens da partida, como dá vida a transgressões não computadas pelo juiz, penalizando o infrator por meio de um hipócrito tribunal post mortem.

Suárez virou bode expiatório por ser reincidente. Na final da Copa da Alemanha, Zidane, que com seu cabezazo na caixa dos peitos poderia ter simplesmente matado o Materazzi, recebeu apenas três partidas de suspensão – algo muito coerente e justo, creio -, e isso porque já havia anunciado a aposentadoria.  

Mas seguindo a lógica bizarra ora em voga, o símbolo “Pelé” seria, por exemplo, hoje, menor do que é. Pela cotovelada na fuça de um uruguaio, na semifinal de 70, o crioulo teria pegado ao menos dez partidas de gancho, tamanha a violência do golpe. Tudo, no entanto, ficou em celestes nuvens; ele jogou a Final, imortalizou-se e fez da camisa 10 canarinho um ícone mundial. Nada disso teria rolado se os cartolas tivessem metido a nariga onde não são chamados.

Isso para não falar dos milhares de pênaltis não marcados, dos gols mal assinalados ou sequer validados e dos corações infartados por equívocos da arbitragem. Será que o bandeirinha suíço que deu o famoso não gol inglês, em Wembley66, vai ter sua honra e seu nome depreciados pela FIFA em praça pública, agora que se instituiu as câmeras na linha do gol? Seu erro causou uma derrota em final de Copa, enquanto que o de Suárez, somente uma escoriação. Qual equívoco selou mais vidas ou mudou mais destinos? Por que, então, a FIFA age como uma divindade envolta em castidade para selar o porvir dos verdadeiros protagonistas do espetáculo, sem nenhuma responsabilidade?

E mais: o que ela quer dizer com nove partidas de suspensão e quatro meses longe de qualquer atividade relacionada ao futebol, proibindo o indivíduo, inclusive, de freqüentar estádios – sem mencionar as 100 mil libras de multa? Aviltamento público? Não sou defensor das bordoadas, mas qual a diferença entre uma mordida e uma cotovelada na cara? Ou de uma cusparada no olho? Quantas pancadas nebulosas não são dadas, diuturnamente, pelos campos de futebol, mundo afora? O padrão-FIFA quer criar jogadores insensíveis, sem emoção?

Zizou justificou que o italiano havia ofendido sua irmã e sua honra, e todos o perdoaram. Isso torna sua cabeçada menos violenta que a dentada de Luizito? Ou menos letal? Menos perigosa? Que jurisprudência ou moral tem a FIFA para acusar este ou aquele por jogo sujo? Logo ela, que merece o epíteto mais do que qualquer outra entidade capitalista no planeta. Logo ela, que inventa uma Copa no meio do deserto e mandou o bom senso se Qatar!

Obviamente que não se trata de perseguição, como alegam os uruguaios; do contrário o mediano Diego Forlán nunca teria sido eleito o melhor da Copa passada. Mas o viés totalitário e injustificável da punição contribui para desconfianças, além de um natural arrefecimento da nossa paixão em relação à Copa. A FIFA não entende de futebol e age com recalque. Toda solidariedade ao Povo Cisplatino. E mordidinha no ombro pro Blatter.



texto originalmente publicado no Borogodó Futebol Clube

foto: joão sassi










quarta-feira, 18 de junho de 2014

Crônicas da Copa - A Seleção e a geração-ostentação

Clima de Copa no Varjão... Será?
O bar do Farinha Azeda, no Varjão, antes um mocó improvisado na garagem de casa, segue sendo apenas um mocó improvisado na garagem de casa. A diferença é que, em lugar de familiares e alguns birituns que freqüentavam o local, a nova geração chegou com força, ocupando todo o espaço e moldando-o a sua maneira.

Na entrada, uma camionete estacionada carrega na caçamba uma enorme estrutura de madeira cravada de caixas de som e outras parafernálias estereofônicas. Do lado de dentro, uma juventude que adora ostentar lota a garagem, muitos dos quais com bermudas, óculos escuros e bonés à la Chorão (ou Neymar). Quase todos na casa dos vinte anos, quando muito. Essa nova freguesia, formada pelos rebentos da primeira geração que imigrou pro Varjão, é quem dá o tom da festa.

A camisa da Seleção não é mais unanimidade. Na Copa passada, a canarinho reinava soberana e tinha benevolência com algumas camisas de clubes brasileiros. No cenário atual, no entanto, ela tem de disputar espaço com pseudo-torcedores da Argentina, da Espanha, da Itália e até da Croácia, adversária do time brasileiro no jogo inaugural. Quem salva a pátria são as meninas; em sua maioria, com a camisa amarela brasileira.

Como de hábito, a ensurdecedora altura do som impede a troca de impressões sobre o jogo, entre os habitués. Quanto mais alto o volume, maior a emoção pela Seleção, parece... Qual nada! Dá-se o intervalo e o funk domina tudo, num estampido colossal; é como se toda a história contada em campo, durante o primeiro tempo, não existisse. A geração ostentação não liga para o que passou; é passado.

O segundo tempo tem início e tardam alguns minutos até que a turba retome o espírito de Copa, desligando a música e trazendo o Galvão de volta. Muitos não conseguem. Já estão intoxicados pelos hormônios da adolescência e pelo álcool em abundância. Para estes, a Seleção é uma marca de sucesso, e a admiração por ela se revela mediante conquistas, e não pelo envolvimento emocional. As minúcias são poucas – bobagens – e o que vale é gozar no final.

Dentro do bar, o clima é de rivalidade entre gangues e não de comunhão entre os cidadãos: disputas pelas meninas e discórdias veladas impedem a confraternização.

O apito final marca o início da festa real. Mc Julinho Top e sua trupe abafam de imediato o Galvão, fazendo eclodir violentamente um funk proibidão. A noite chega cheia de malícia, enquanto cigarros, vodcas e olhares enviesados fazem a Seleção desaparecer em meio ao fumacê... 


 foto: joão sassi

terça-feira, 3 de junho de 2014

O Craque Cinema-Novo - Torcer ou não pela Seleção?

David Luiz - um craque com uma câmera na mão e boas ideias na cabeça!
A dez dias da Copa do Mundo do Brasil, manifestar entusiasmo pela Seleção Brasileira pode colocar o elemento sob maus lençóis, estando, o incauto, sujeito a ataques ideológicos de todas as frentes. É como se a torcida pelo time canarinho revelasse, em última instância, uma indiferença aristocrática em relação aos problemas sociais da nação, e quando não, pura alienação. Tenho a sensação de déjà vu, mas admito que talvez haja razões para se torcer contra...

Na Copa de 70, no auge da carnificina ditatorial tupiniquim, Médici colou a imagem do Governo à da Seleção; abraçar a equipe nacional significaria dar lastro às torturas e ao estado de exceção. Passei boa parte da minha vida num conflito interno, indagando à minha consciência o que faria se fosse nascido à época de tal patifaria. Engajar-me na luta armada, sim, mas deixar de torcer pela Seleção... Haveria sentido em tamanha traição?

É possível (e até compreensível) que muito guerrilheiro “subversivo” tenha comemorado o gol da Tchecoslováquia que abriu o placar contra nosotros, na estréia. Era um gol nos córnos do general, afinal!... Entretanto, após espetacular virada (4x1), as emoções produzidas revelaram um sentimento de leveza e êxtase que nada tinha a ver com o regime de terror imposto pelos torturadores - e quem antes torcia o nariz, passou a torcer a favor. Os militares não tomariam o que é nosso.

Enquanto o Estado era beligerante e genocida, gerador de tensão mórbida constante entre os cidadãos, Pelé e companhia eram êxtase e fantasia, motivo de orgulho puro e alegria! A conexão havia se dado pelo sentimento daqueles que se viam representados num terreno fértil de arte e inventividade, simbolizado pela técnica exuberante e envolvente do time brasileiro. A cada vitória, a lembrança de que ainda havia vida e esperança, apesar das mortes nos porões.

Nas três copas subseqüentes, esse incômodo enlace entre a então CBD (Confederação Brasileira de Desportos, que logo se tornaria CBF) e a ditadura militar sempre incomodou o torcedor; algo tirava a plenitude do prazer e do apoio incondicional. Com o fim dos anos de chumbo, a Copa de 86 traria consigo o restabelecimento de um sentimento genuíno entre a Seleção e o povo brasileiro; um amor sem amarras, livre e desimpedido. O país tirava do forno uma Constituição Cidadã e todo mundo naquele pensamento positivo de que o amanhã seria melhor, todos batalhando ‘pro dia nascer feliz’! Mas aí, o Tancredo morreu, o Sarney apareceu e o time do Telê sifudeu! Doravante, o affair entre o scratch brasileiro e o torcedor voltou a degringolar; desta feita, não só por razões ideológicas, mas, sobretudo, econômicas.

Não bastasse a ziquizira que se abateu sobre a Nova República, ainda tivemos de aturar o Collor batendo pênalti, o Lazaroni comandando a seleça e o Ricardo Teixeira vendendo a alma do futebol brasileiro ao Diabo. A principal medida adotada pelo tão arguto como moderno cartola foi conceituar e valorizar a marca “Seleção Brasileira”. Como resultado, a grana saiu pelo ladrão durante sua extensa e lucrativa gestão. O amor, no entanto, foi miando no coração da população.

Não que nos faltassem motivos; ao longo das duas últimas décadas, Romário, Robolão, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká, com inúmeras conquistas, mundiais e demais, mantiveram as ações da CBF em alta e a Seleção Brasileira nos píncaros do estrelato. Mas enquanto a marca se sobrelevava, a alma padecia. Na Era das comunicações instantâneas, o link entre a realeza do futebol mundial e seus mais abnegados súditos se deteriorava a cada amistoso disputado em campos londrinos, texanos ou médio-orientais. Vendida a sheiks, nikes, claros, sadias, itaús e gilletes da vida, a equipe atual parece uma vitrine de garotos-propaganda.

Para piorar, as televisões, insuportavelmente onipresentes, transmitem todo o cotidiano da Granja Comary em clima de oba-oba e celebritismo, transformando tudo numa Disneylândia verde-amarela e o telespectador num retardado mental ufanista. Forjam a toda hora o papel de porta-voz oficial da Seleção, paparicam o Felipão e impõem aos despreparados atletas uma amizade forçada e constrangedora. Domingo à noite, por exemplo, o FANTÁSTICO prometia “Neymar, na intimidade, como você nunca viu!”. O rapaz não podia nem olhar paras as coxas da Bruna, e lá estava uma câmera bigbrodiana a noticiar a malícia do craque evangélico.  

Uma coisa é ver a rapaziada do CQC fazendo perguntas indiscretas ou arrotando intimidade junto aos famosos; outra é ver um jornalismo pretensamente sério tutelar jogador, como faz Luiz Roberto, ao chamar seguidamente de “Waltinho” o atacante Walter, do Fluminense, evocando, coloquialmente, uma pretensa empatia entre ele e o matuto centro-avante - ou àquilo que ele representa (pureza, ingenuidade, etc). Galvão, então, é o mestre dos cumprimentos juvenis e descolados, bem como daquela mãozinha paternal sobre o ombro de seus entrevistados. Ele espera que todos o tratem como uma sumidade e, dado seu ego monumental, é incapaz de reconhecer no seu interlocutor alguém de maior envergadura que ele mesmo.

O Esporte Espetacular exibiu uma entrevista de Thiago Asmar com os brasileiros que atuam no Chelsea, cheia de provocações infantis, sobre “quem é o mais falador” ou “quem tem o cabelo mais bonito”, em que se via o repórter instigando os jogadores a se comportarem como se estivessem falando à “Caras”. Houve até espaço para arrogância quando ele indagou: -“Willian, então você é o caladinho da turma?”. Deveria haver mais sensibilidade num jornalista que se vira para um ser humano tímido e manda um “caladinho”, em frente aos companheiros de profissão e às câmeras de TV, num misto de compreensão e chacota. Ele se coloca nitidamente num patamar superior ao dos jogadores que, porventura, representam a nação.

Tantos motivos, artificialismos e distorções nos levam, emocionalmente, cada vez mais para longe da Seleção, pois não nos identificamos, em geral, com a apropriação tão mercenária e padronizada de algo que nos é tão caro e seminal, como a cultura do futebol brasileiro. Tampouco queremos ver nossa paixão atrelada a imagem de uma emissora de TV "oficial". Eu não quero ser amigão do Galvão! Toleramos até mesmo que nossos clubes sejam usurpados por aves de rapina do mercado mundial, com promessas de craques, título e coisa e tal, mas quando o mesmo se dá com o selecionado nacional, aquilo que há de mais genuíno no nosso sentimento acaba morrendo, mesmo que aos poucos. Dá vontade de recolher as bandeiras...

Nisso, em nada contribui o Governo Brasileiro, em meio a tantas promessas não cumpridas, apregoar, fanaticamente, o tal #CopaDasCopas rede afora. Moro numa cidade-sede e estou envergonhado com o Governo local (do mesmo partido da Presidenta) por conta do despreparo e das “suspeitas” de superfaturamentos, desvios e corrupção, mas vejo peças publicitárias informando-me que moro no Paraíso. Em documentário exibido à semana passada pela TV Câmara (Mané de Brasília), Agnulo (apelido carinhoso do nosso mandatário) se jacta de estar construindo o “estádio mais barato da Copa de 2014”... Na boa, não tem como não se revoltar com os 1.6 BI gastos até agora, a despeito do entorno do Estádio Mané Garrincha continuar uma joça.

E então, que se dane a merda da Seleção?... Ou não?

Em meio ao desânimo e à desesperança, eis que o zagueiro David Luiz dá mostras de que nem só de bobos vive o esporte quando é indagado como seria sua “copa das copas”. A resposta, cheia de personalidade (dada a frivolidade com que a Globo costura sociologia e futebol) ecoou pela televisão de cada residência como ar fresco entrando pela janela da madrugada: - “Quero que o Brasil também seja campeão fora de campo: que nosso país consiga enxergar que também é importante que nosso povo tenha mais ajuda em inúmeros aspectos. De que adianta ser campeão dentro de campo se nossa gente não está bem?”.

À época do Tri, Tostão, por exemplo, não disse nada, apesar de se sentir envergonhado em ter de apertar a mão de Médici, no Palácio do Planalto. No contexto atual, porém, está claro que alguém que aproveita os holofotes para chamar atenção às necessidades do seu país não pode ser tratado como um alienado ou mau exemplo de cidadão. É um ídolo que fala às novas gerações sobre a necessidade de mudança da realidade social brasileira – é o “Craque-Cinema Novo”!

Não se pode, portanto, confundir a CBF e suas patrocinadoras, tampouco a mancomunação do Governo Brasileiro e da FIFA, com cada um dos indivíduos convocados para representar a população brasileira numa Copa do Mundo – a maior demonstração de congregação mundial entre os povos.

Por isso eu digo foda-se à CBF, à FIFA, aos patrocinadores, à situação e à oposição política nacional, e a todo aquele que se aproveitou para roubar a nação, e também à Joana e ao Teixeirão, mas à Copa e à Seleção, não! Não é por culpa dos jogadores e muito menos do cidadão (ainda mal instruído, mal-educado e maltratado) que o Brasil ainda seja tão desigual, atrasado e corrupto. Que sejamos hexacampeões, e que, a exemplo de David, a vitória da Seleção, em nossos domínios, expresse o desejo popular e simbolize um país menos vira-lata; um país que joga não somente para inglês aplaudir, senão para o povo brasileiro evoluir.


foto&arte: joão sassi



quarta-feira, 28 de maio de 2014

Em Brasília, policial é flechado por índio!


Reza a máxima do jornalismo que a notícia não ocorre quando um cachorro morde um homem, senão quando este morde o cachorro. Foi certamente com esse ensinamento em mente que o apresentador do Jornal Nacional, Willian Bonner alardeou a seguinte manchete: “EM BRASÍLIA, POLICIAL É FLECHADO POR ÍNDIO!”.  

As imagens do embate entre as tropas do governador do DF e os “silvícolas” são exibidas em câmera lenta, com recursos visuais que dão ênfase à flecha de um selvagem atingindo um homem civilizado – que audácia! Uma cena inacreditável para os primórdios do terceiro milênio; a cavalaria atacada por uma chuva de flechas, a duas semanas do maior evento esportivo do planeta! A úlcera do Blatter pulsa!

Ao Homer apavorado que a tudo assiste do conforto do seu lar, não importa noticiar que uma tropa de choque, a cavalo, fortemente armada e adestrada para espancamentos aleatórios, se interpôs barbaramente entre os manifestantes e o Estádio Mané Garrincha, mas somente que a Capital do País está sob ataque indígena! Balas de borracha, lapadas de cassetete nas costas e bombas de gás sobre a população não são notícia.

Por ser centenária, a agressão cometida pelo branco contra o índio não é e nunca foi motivo de muito alarde. Os que não sofreram genocídio sofrem, cotidianamente, covardes ataques físicos e brutais perseguições morais dentro de um país que se diz de todos os brasileiros. Fenômeno este que se repete no Brasil desde a chegada da primeira caravela cabralina, foi replicado por imperadores e republicanos, ditadores e tucanos, e que hoje encontra eco na ação criminosa de ruralistas que, sem o menor constrangimento, dividem a mesa de jantar do Palácio do Planalto com a presidenta petista, decidindo os rumos do Brasil Celeiro.

A poucas centenas de metros da pancadaria, se exibia em puro ouro a taça da Copa do Mundo, para deleite da cristandade local. Idolatrada pela massa alienada que a adorava, é possível imaginar que a turba de selvagens que subia o Eixo Monumental quisesse destruir aquele símbolo de poder pagão, assim como o fez Moisés com o bezerro dourado, após receber das mãos do Senhor sua santa missão.

Em tempos de Copa, porém, Deus não é juiz e não apita nada por aqui; quem entende de mandamentos é a FIFA, quem obedece como um bezerro é o Estado Brasileiro, e quem é destruído são os direitos da população, indígenas ou não.

Eu queria muito que essa Copa fosse fruto de um governo totalitário, de direita, bem reacionário, para que eu pudesse encher a boca contra toda espécie de arbítrio cometido, cheio de razão. Mas ela é fruto dos novos tempos; tempos em que a esperança venceu o medo e que um torneiro-mecânico virou presidente; tempos de muita concessão já feita ao patriarcado tradicional; de muita mão beijada e enfiada na merda; de muita gente engordando, enriquecendo, fazendo a barba ou ensurdecendo.  Tempos de Belo Monte, Monsanto, agronegócio e retrocesso ambiental. De morte no campo e de jovens indígenas baleados e abandonados à beira de estrada vicinal.

Tempos, afinal, em que nosso servil Bebetinho, trajando o uniforme vermelho da multinacional, embala a Taça nas mãos e agradece à Coca-cola por fazer o “Tour da Copa” e permitir que todo brasileiro “sinta essa emoção”. O bom baiano, ou sabe mais que a gente, ou não sabe de nada, o inocente.

foto&arte: joão sassi

terça-feira, 13 de maio de 2014

A Cocotinha do Papai

Mas pode me chamar de Rihanna!
Ansiosa, eu vagava pelo quarto, já bem tarde da noite. Ora sentada na cama, ora olhando o jardim pela janela, queria que a manhã chegasse logo. De vez em quando, parava diante do espelho, desenlaçava o robe e ficava me analisando, nua, procurando por algum defeito em meu corpo. Fazia caras e bocas, acariciava meus pequenos seios e empinava o bumbum, interpretando uma sensualidade ainda crua, juvenil. Assim foi a madrugada; acordada, pensando no compromisso de logo mais.

Às seis da manhã, estava banhada, cheirosa e maquiada; pronta! Dali a minutos, meu pai me daria uma carona até a faculdade:

   – “Maquiagem pesada, hoje, mocinha... Não acha que está vulgar demais para um dia de semana?”, questionou.
   – “É para uma foto da turma pai; todas vão estar assim. Depois eu lavo o rosto!”, respondi, fazendo ares infantis.
   - “É melhor, mesmo; do contrário vão pensar que você é uma dessas vagabundas que andam por aí!...”. 

Esse era o jeito do meu pai; tratar com rispidez quando reprovava minhas escolhas. Algum carinho, só “do jeito dele”. Se concordasse, tinha certo apoio e até algumas vontades atendidas; se o contrariasse, contudo, perdia seu sorriso, mimos e confiança.  Quando criança, depois que mamãe morreu, fiz esse jogo, por inocência e carência. Depois me magoei. Agora, “praticamente maior de idade”, parei de me rebaixar; só faço quando preciso, por cinismo, aparência, dissimulação mesmo. Apesar disso, a hipocrisia dele já estava me enchendo...

Afinal, quem ele acha que é para falar da minha maquiagem? Pensa que mamãe não sabia que ele comia todas as secretárias e aquelas apresentadoras decrépitas do jornal? Bando de aproveitadoras! Mocréias botocadas que se acham as gatinhas! São justamente as tais “vagabundas que andam por aí”, e que ele conhece muito bem!... E ainda vem falar da minha maquiagem?!

A Mercedes encostava em frente à faculdade quando ele me pergunta se ainda me sobrou um pouco da mesada. Digo que não; que os 500 reais que eu “ganho” não dão para nada. Apiedado, ele me dá 20 reais e um beijo na testa: - “Tome, caso queira fazer um lanche gostoso com suas coleguinhas, no recreio...”.

Assim que o carro dobrou a esquina, saí dali depressa. Estava muito nervosa, apesar de convicta. Para me tranqüilizar, pensava no que Valéria havia dito (“Não tem perigo, boba! É esquema de confiança; dinheiro fácil!”). 

 Valéria era uma colega de curso a quem todos acusavam de ser piranha. Pelos corredores da “facult”, ela desfilava com salto e vestidinhos de marca provocantes demais, até para os dias atuais. Com cabelos encaracolados e meio alaranjados, algumas sardas e nem tão bonita assim, era gostosa de doer e tinha auto-estima, razão pela qual era odiada e invejada pelas meninas. Os garotos faziam de tudo por ela, fantasiando um serviço grátis, embora colecionassem nada além de risinhos e piscadelas de agradecimento, os tolinhos. Ela não estava nem aí para a pirralhada.

Um dia, impulsivamente, perguntei se ela fazia programa.  Sem se incomodar, disse: - “Como você acha que tenho tudo isso?” –, apontando para o corpo e para as roupas – “Você é riquinha e tem quem te compre as coisas, querida, mas nem todo mundo tem essa sorte.” – arrematou, sem saber que tinha arrematado também meu orgulho.

A verdade é que eu achava humilhante ter que fazer o jogo do meu pai sempre que eu precisava ir ao shopping comprar uma simples calça jeans. Além, é claro, dele nunca me deixar comprar o que eu realmente quero!

Percebendo meu encantamento, Valéria esticou o olhar e soltou no ar: - “Quer experimentar? O máximo que pode acontecer é você não gozar, boba!”. Achei tão simples a contrapartida apresentada que, uma semana depois, ali estava eu, no ponto marcado, esperando por um “amigo” que logo viria ao meu encontro.

Não demorou até que um luxuoso carro de vidros escuros parasse ao meu lado. Quando o vidro baixou, vi um homem charmoso, pouco mais velho que meu pai. Com uma voz grave que combinava perfeitamente com seu terno fino, olhou pra mim e perguntou se eu era a Rihanna - era a senha para que eu entrasse. Dali, seguimos para um motel. Em duas horas, gozei quatro vezes e ganhei mil reais.


Voltei à faculdade antes das aulas terminarem. Pouco após o meio-dia, já estava em frente à entrada. Quando meu pai chegou, eu ainda estava bem relaxada... Mas senti contrair toda a musculatura da alma quando, ao me abraçar, suas mãos tocaram meus cabelos ainda úmidos. Temi por perguntas que eu não saberia responder. Mas ele então sorriu com candura, alisou meu rosto limpo – agora sem maquiagem - e arrancou com o carro, cheio de satisfação: - “Que obediente é a cocotinha do papai! Vai ganhar uma sobremesa especial neste almoço, ora, vai!...”.


photo: joão sassi