segunda-feira, 26 de março de 2018

Festinha na Creche

O que acontece na festinha da creche fica na festinha da creche.


   - Papai, a Aline tá na casa dela? – pergunta o guri de pouco mais de dois anos.

   - Não, ela foi pra escolinha também. Outra escolinha.

      Benedito está ao volante, irritado com a alta velocidade de alguns motoristas que vem em sentido contrário. A estrada vicinal por onde trafegam é de terra e cascalho, e é estreita. Nos primeiros dias, cumprimentavam-se uns aos outros. Com o tempo, os bons modos foram esquecidos e ninguém se constrange mais em ser deseducado, mesmo que se encontrem na creche com ar de aquele não sou eu. Mas Benedito não quer transparecer preocupação enquanto dialoga com Inácio, ocupante da cadeirinha instalada no banco de trás; prefere desfrutar o bom-humor do filho.

   - Papai, põe o menino brasileiro no rádio?... – pede ele.
   
   - Não dá, meu lindo. Já acabou. Saímos atrasados... Você não deveria ter ficado fazendo tanto dengo com mamãe na cama, né? O hino brasileiro toca às oito horas; só amanhã, agora...      
                                                  
    Inácio aperta os olhos contra o sol.

   - Cadê a cortininha pro sol não passar em mim, papai?...

   – Tá lavando, mas o sol já vai embora: olhe ali, logo adiante a estradinha fica sombreada, vê? – aponta Benedito, enquanto Inácio o ignora e acha na mão, esquecida, uma banda de pão-francês torrado com pouca manteiga. Dá uma mordiscada.

    Costumava comer toda e pedir mais, no que agora lhe parecia mais divertido despertar inveja nos coleguinhas com sua iguaria babada. O tiro, no entanto, saiu pela culatra depois que umas menininhas gulosas puxaram a camisa do ‘Tio Dito’ dizendo “também quelo”. Ele então se viu na obrigação de levar uma banda de reserva, embrulhada no bolso, e dar às crianças como se desse aos pombos da praça, aos pedacinhos, transformando a partilha num grande bafafá na porta da sala. Com cada vez mais pessoinhas curiosas e pidonas à volta do Tio Dito, este passou a levar um pão inteiro, cooptando até os mais tímidos e birrentos da classe. A professora não gosta desse fuzuê porque todos se dispersam, estragando seu planejamento. Ela espera que Benedito se toque; ele se toca, mas não se importa. Haroldo, ajudante da professora, também não, e se diverte vendo Benedito entreter os pirralhos. Haroldo ainda é estagiário.

   - Papai, põe fon-fon no rádio?

    Benedito alcança um cd no porta-luvas; a música inicial é In the Mood.

   – É o Glen Mila, papai? – pergunta Inácio, já com a resposta no olhar. O pai olha pelo retrovisor o sorriso maroto. Inácio sabe que quando acerta, o pai o felicita dizendo “êta, garoto batuta!” que ele adora ouvir.

   - Sim, é o Glenn Miller; Glenn Miller e sua orquestra.

   - ...e minha orquestra, né, papai?

   - É, sua orquestra... – diz o pai, levando o braço direito para trás do banco e massageando carinhosamente os pés do filho.

    Um motorista de óculos escuros ignora o espaço cedido gentilmente e passa rápido, sem agradecer. Benedito se incomoda em estar incomodado numa manhã tão bonita e fresca, princípio de Outono. Olha novamente e vê o filho vidrado no som: Inácio balança a cabeça acompanhando a investida dos saxofones, completamente envolvido pelo naipe de metais orquestrado por Glenn. Na segunda metade da música, acompanha os trombones às gargalhadas, fazendo fon-fon em resposta à provocação aguda dos trompetes. Quando entra Moonlight Serenade baixando a bola, o pequeno aceita a mudança de rumo e relaxa.

    Benedito passa em primeira marcha por um trecho mais acidentado. Inácio, agora pensativo, tenta se segurar com o sacolejo.

   - Eu gosto da Aline, papai. Vou guardar o pãozinho pra dar pra ela – decide o garoto, e olha ao redor procurando o guardanapo que jogou por ali.

   - Ela é legal, mas não precisa guardar seu pão; a Aline já comeu o dela – diz Benedito. – Aliás, ela te convidou para brincar lá hoje à tarde; vamos?

   - Não...

   - Ué?... Não?!.. Por quê?

   - Não, papai, porque eu vou trazer a Aline pra minha escolinha! – diz, satisfeitíssimo com o plano.

  - Pra sua escolinha?... Certo, mas tem que ser num dia de celebração – sugere o pai, deixando um ponto de interrogação na testa da criança. – Tem de ser numa comemoração... Num dia de festinha! – explicou.

   - É mesmo... Boa idéia, né, papai?... – responde o menino, refreando a felicidade momentaneamente infinita. Benedito prossegue:

   - Não pode ser em dia de aula. Hoje, por exemplo, você tem aula de música; você gosta da aula de música, né?

   - Não.

   - Não!?... Mas você adorava!... E da aula de circo, você gosta?

   - Não.

   - Ué, de que aula você gosta?

   Inácio procura o pai no retrovisor e emenda:

  - Aula de festinha, papai!
 



Nota: essa crônica foi concluída em 25 de março, em homenagem à memória da minha avó materna, D. Moema e à minha irmã Amanda, aniversariantes do dia; às duas, minha lembrança, meu carinho e meu amor.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Valdeliano Faz Frete

Valdeliano e seu caminho existencial: um feixe luz.

A franja sobre os óculos de aros grossos estacionados no meio do nariz, os dentes avantajados e o forte sotaque do interior mineiro conferiam a Valdeliano simpatia no jeito e comicidade na aparência. Dois dedos atrofiados na mão direita faziam a audiência se perguntar se escolhera a melhor atividade para sobreviver. A audiência é perversa. Valdeliano não teve muita escolha na vida.

Quando foi morar no antigo acampamento da Telebrasília, não havia pavimentação e tudo era precário. A lama subia na calça quando chovia e a poeira entalava na garganta quando não. Ali se estabeleceu após o segundo casamento, ocasião em que, além da mulher, perdeu o dinheiro que sobrara do primeiro, restando somente alguns caraminguás que guardara no colchão.

Quinquagenário, sem alternativa, empenhou-os numa camioneta de quarta-mão, fazendo do frete seu ganha-pão - a ‘Mulinha’ (porque cambaleante, rangenta e vagarosa) dava conta de pequenas mudanças.

Numa dessas madrugadas frias de maio ou junho, tão logo os cachorros do vizinho latiram para o primeiro infeliz que cruzou o beco, Valdeliano despertou. Vendo o breu, fingiu que não e tratou de colocar o travesseiro sobre o ouvido para pegar o sono pelo rabo. Não deu; a bexiga cheia não deixou. Alcançou os óculos sob o travesseiro e se pôs sentado. Agasalhou-se com a própria coberta e seguiu para a casinha, fora do barraco. Chovia fino. Era o resquício antes da estiagem no Cerrado. Pronunciou o queixo e bafejou aquele vaporzinho no ar... “Que friozin bão do carái!”, emendou, bocejando e espiando o céu acinzentado, ainda escuro. Acabou esbarrando num balde, fazendo-o tilintar pela pinguela; a cachorrada não perdoou. Deu sua mijada e, já sem sono, resignou-se em abandonar a coberta, agasalhar-se e ir à cozinha fazer o que comer.

Atarraxou no bocal a lâmpada que pendia no ar e ligou o radinho pendurado à estante de tábuas e tijolos, ao lado do fogareiro. Encheu o bule, colocando-o sobre a chama azulada de gás, e fatiou dois pães dormidos, enquanto escutava aquelas conversas de rádio AM. Meteu-os num forninho elétrico (que concertara após achá-lo num entulho próximo) e encheu de pó o coador; esperou o bule apitar e depois derramou a água fervida, precipitando um vapor cheiroso de café que valeu por um beijo de mãe, e Valdeliano se sentiu bem.

Em seguida, tirou do velho frigobar algo envolvido num pano de prato. Desembrulhou e cheirou com carinho; era queijo mineiro, “dos mió”! Conseguia com o vizinho dos cachorros - conterrâneo seu, que trazia aos montes e revendia na Esplanada dos Ministérios –, por isso Valdeliano não dava queixa dos latidos: preferia acordar nas madrugadas a ficar sem o “quejin”.  Satisfeito, cortou um naco e guardou o resto.

De um pote de metal, pegou manteiga e passou em cada rodela fumegante de pão tostado, empilhando-as no prato, junto ao queijo. Desenroscou a tampa de um frasco de vidro de onde tirou um bom punhado de açúcar para pôr no copo, já com café quente até mais da metade.

Comia tranquilamente, achando bom o barulhinho da torrada mastigada, e esquentava o corpo com a bebida quente. “Como um quejin pode sê tão branquin?”, filosofava, dentro da cabeça, envolvido numa atmosfera de abstração e regozijo. Súbito, o prato estava vazio, e pela frente o mundo real: transportar um tampo de vidro de quase três metros!

Foi uma manhã terrível, mas o serviço foi feito. Com doses cavalares de dor, aflição e esgotamento físico, Valdeliano venceu os três lances de escada em forma de caracol do bloco residencial, na Asa Norte, antes de deitar o pesadíssimo fardo na Mulinha, intacto. O que só foi possível com a solidariedade do zelador, do Seu Afrânio (o dono da mesa) e de um pintor prestativo. Arfando, mas agradecido, Seu Afrânio deu vinte pilas ao zelador e outras vinte ao pintor.

Quando se preparavam para sair, o carro de Seu Afrânio rateou. Valdeliano desceu da Mulinha com uma caixa de ferramentas à mão. Ficou quinze minutos escondido atrás do capô dizendo, “liga!”, “acelera!”, “tá bão...”, etc., e o carro funcionou bem.

– Meu irmão era mecânico lá em Minas! – gritou, montando na Mulinha e se picando para o local de entrega (que ficava no térreo).

Compromisso cumprido, mesona na sala de jantar, surgiu a pergunta:

   - Quanto lhe devo?
   - Uai, o sinhô qué pagá quanto?
   - Não sei... - espantou-se Seu Afrânio – Qual o preço médio do mercado?
  - Mió nem falá em mercado; si fô falá em mercado ocê num vai nem querê sabê! – disse Valdeliano, cruzando os braços e espremendo os olhos entre a franja e o aro dos óculos, enquanto balançava a cabeça com ares de sabedoria profunda. E os dentões sobrando pra fora da boca.

   - Vixi!... Então, que tal... Cem?
   - ...Cento e vinte?
   - Cento e vinte! – concordou Seu Afrânio, sacando o montante do bolso.

Valdeliano pegou, separou uma nota de vinte e a devolveu:

   - Ói, isso é pela ajuda ca mesa. Sem ocê num dava jeito... Brigadão, mês!

Seu Afrânio hesitou, e quando pensou em recusar, a Mulinha já havia partido.


créditos de imagem: joão sassi


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Festa Estranha com Gente Esquisita

Pergunte ao parente se tudo valeu a pena só pra ter um celular da ora.


      A classe estava repleta de estudantes de Ciências Sociais. Debatíamos catástrofes advindas da colonização no continente africano. Eis que um colega diverge do senso comum ao garantir que, preto no branco, a troca de dialetos primitivos pelo idioma europeu favoreceria os povos subjugados por conta do acesso de seus descendentes ao “mundo civilizado”. Em sua percepção, a escravização e o possível genocídio de algumas das populações afligidas deveriam ser interpretados como um mero dano colateral.

      Ficamos boquiabertos, ou mesmo indignados. E o mal-estar aumentava à medida que ele sacava argumentos como “é a verdade que ninguém quer ouvir”, ou “vocês gostariam de estar falando Tupi até hoje?”, e um punhado de disparates para defender seu modelo de inclusão sócio-cultural colonial. Este bem-intencionado rapaz estudava Sociologia e era o único dentre seus sequazes das Sociais a admirar ex-presidente FHC (nosso sociólogo mulatinho) e a defender ardorosamente o liberalista Adam Smith. Não demorou e o debate transfigurou-se em acalorada discussão, a professora pôs fim à aula, e Ferdinando – este era seu nome – permaneceu surdo em sua cadeira, ignorando a razão alheia com expressões de tédio e sono.

      Angustiado com a exposição das ideias desse ser de outro mundo, refleti sobre o porquê desse sujeito propagar seus equívocos em tom desafiador sem ao menos se dar ao trabalho de perguntar a quem sofre na pele as conseqüências da escravidão, sua opinião. Muito aluno poderia dizer-lhe com autoridade moral, empírica e histórica, o que acha do tataravô ter sido obrigado a cruzar o Atlântico em meio a bosta, doença e morte para (malgrado uma chibatada no lombo, uma marca de ferro quente na cara e um murro no estômago para não perder o costume) aprender a língua de Camões em Pindorama (posteriormente Brazil – Terra do Pato Amarelo), e, de quebra, ganhar um deus punitivo para adorar, um Cristo photoshopado de olhos azuis para reverenciar e uma religião cheia de culpa para se espiritualizar adequadamente. Se fosse mulher, a sorte não era tão grande, já que a benesse do aprendizado lexical seria inexoravelmente acompanhada de estupros e todo tipo de perversão sexual.

      Bem diferente daquilo que um dia sonhamos quando lutamos pelas Diretas, ou quando acabou a ditadura, ou, ainda ontem, quando pensávamos haver elegido um governo democrático, progressista e popular, o pensamento raso, reacionário, e individualista, típico de extremismos de direita, não estava em vias de desaparecer nesse nascedouro da Era de Aquarius, senão o contrário: as almas sebosas e os espíritos do Medioevo estavam apenas adormecidos no breu dos esgotos, enrustidos pelos bons auspícios que a atmosfera progressista da Novíssima República produzia. Mas hoje mostram sua cara, amparados pelo mau-caratismo em voga, através de faces muitas vezes familiares, como aquela tia querida de toda uma vida, o professor gente boa, o primo de Minas ou um amigo de infância; estão todos aí nas redes sociais defendendo pena de morte ‘pra bandido’ e longa vida a fetos sem qualquer garantia de uma sobrevivência orgânica ou social - sempre em nome do Senhor. Então você percebe que os Ferdinandos são muitos, e em número cada vez maior no prédio, na rua, na sala de aula... Festa estranha com gente esquisita.

      Paira no ar o cheiro da podridão. Uma nova e vergonhosa ditadura se avizinha, daquelas que nos farão olhar pra baixo, envergonhados pela capacidade que nossos irmãos latino-americanos demonstram em reagir, lutar e resistir, enquanto nós não. Há também cheiro de delinqüência, de ignorância e de superficialismo nos arredores. De preconceito, de difamação e de fanatismo na vizinhança. É forte o cheiro de polícia, de escuta ilegal, de porões, tortura. Instalado, o Mal ora viceja.

      Essa celeuma acadêmica ocorreu antes da conexão total que se experimenta atualmente. Foi num tempo em que para entrar no Orkut (!?) você tinha de ser convidado por um amigo bacana, aristocraticamente falando. Passados mais de dez anos, o advento de engenhocas futuristas desenvolvidas nesse período (smartphones) e de plataformas com poder catalisador suficiente para aglutinar bilhões de adeptos (Facebook e Twitter) revelou que nosso amigo imperialista da universidade não fora o único ET a perder o rumo de seu planeta. Ler comentários ou “opiniões” nas páginas da internet, nos dias atuais, é comprovar inequivocamente o fracasso do modelo evolutivo que experienciamos como seres humanos... (e o sucesso das teorias ferdinandianas).

      Basta uma simples análise desses comentários, bem como da constante reinterpretação da realidade perpetrada pelos haters, no mundo digital, para chegarmos à infame conclusão que Ferdinando deve estar rindo muito da cara de todos os que o consideravam um retardado quando, claramente, estava à frente de seu tempo. 



Créditos de imagem: joão sassi

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Nossos Líderes e o Grande Acordo Nacional

Líderes mundiais (todos petralhas e mortadelas) dão distinção ao presida: onde está Wally?


Suspeita-se que Nossos Líderes sejam ladrões, e que venham pilhando a Nação desde há tempos, geração após geração. Há indícios que matem por terra, dinheiro e afins, conforme nos ensina a história, mesmo quando contada por eles mesmos.

Como no tempo do Santo Ofício, Nossos Líderes entendem que índio não é exatamente gente, como também não o são os pretos, os homossexuais, os humanistas e as mulheres, mesmo as recatadas, as do lar e as jornalistas de direita, assim como os pobres de qualquer sexo, idade ou cor. Não obstante, são crentes no bom Deus e devotos do nosso senhor Jesus Cristo – nenhum deles é ateu. Apesar da fé cristã, não aprovam a conduta subversiva do franciscano Supremo Pontífice. O papa Pancho, por sua vez, já colocou os nomes de Nossos Líderes na boca do sapo. E, para o caso da macumba do batráquio falhar, reza, dia sim, outro também, para que queimem todos no fogo dos infernos. Sendo representantes de um povo ordeiro e cristão, Nossos Líderes dão o exemplo e comungam diariamente (mas só em período eleitoral), mesmo que, ocasionalmente, sejam pedófilos, cafetões, espancadores de mulher ou estupradores e, frequentemente, madeireiros, latifundiários, escravagistas, contrabandistas ou ruralistas. Afora bispos, pastores, bicheiros e assassinos. Alguns dos quais, escritores e até poetas!

Nossos Líderes admiram caninamente a América e abanam o rabo para qualquer um dos 45 presidentes norte-americanos, à exceção do Barack que, embora não seja comunista, gay, pobre ou mulher, é preto. Nossos Líderes preferem os que se pareçam a John Wayne, e que ajam como tal, aniquilando índios e detratores do sistema, com o charme de quem sempre tem um maubôro à boca.

Nossos Líderes acreditam piamente na auto-regulação do Mercado, mas tacham de jurássicos os que falam em Socialismo – para eles, uma seita de fanáticos formada por maconheiros, estudantes de Ciências Sociais e outros desocupados; todos lobotomizados durante o Ensino Médio por esquerdopatas dogmatizadores. Comunismo, claro, é coisa do Capeta. Defendem com veemência o Estado Mínimo e entendem como dinheiro mal gasto aquele destinado a projetos de cunho social e redistribuição de renda. Se a redistribuição, no entanto, for para salvar bancos privados da bancarrota, aí zelam pelo Estado Máximo.

Além de alvos e anti-pederastas, são comumente bem abastados os Nossos Líderes, pois sem contabilizar quantias não contabilizáveis, sempre contam com a mão amiga do Estado que tanto odeiam, mas que lhes banca cargos públicos, supersalários, aposentadorias especiais e regalias que colecionam ao longo da “árdua labuta política”. E como labutam (principalmente no dos outros)! Há quem diga que fazem política por caridade e amor à República, e que se preciso for, recorrem às garruchas a fim de garantir os interesses nacionais; tese recentemente corroborada pela chacina de agricultores, no feudo de Mato Grosso, ou pela emboscada genocida feita aos índios, nas sesmarias do Maranhão. Nossos líderes entendem que não há forma mais objetiva e funcional de dialogar que com o porrete. O Brasil tem pressa. “Pau neles”, diria o pit bull palestrino.

Apesar do bom momento e dos holofotes que ora desfrutam (?), Nossos Líderes viveram os últimos anos envoltos em amargura e ostracismo por conta das sucessivas derrotas eleitorais. Com mais uma no horizonte, emergiram das profundezas com um plano para salvar o País mediante um Grande Acordo Nacional. O áudio com o audacioso plano vazou, de modo que o Brasil inteiro ficou sabendo do roteiro do golp... plano para nos salvar, com o Supremo, com tudo. Sendo mais engraçado pensar que todos os desdobramentos, desde então, não passaram de mera sucessão de coincidências, o golp... plano para salvar o país dos comunas, tal como sua revelação em cadeia nacional, em nada fizeram corar aquela parcela dos brasileiros que mais entende de surubas tenebrosas e camisas da seleção.

Com tantos sorvetes na testa, Nossos Líderes são motivo de chacota em todo lugar. Por aqui, gozam (leia-se, agonizam) com 9% de aprovação da sociedade que tentam salvar, enquanto lá fora, vivem o limbo geopolítico: são escanteados e isolados nas fotos oficiais, imploram por encontros bilaterais e tem visto de entrada negado nas terras do Tio Sam.

Ainda assim, e imbuídos por motivações de foro íntimo, Nossos Líderes elaboraram um pacote de ações draconianas que mergulhará o Brasil no mais absoluto atraso social. E assim, nesse balanço sem nenhum requebrado, a toque de caixa e com pedidos de urgência que ninguém enxerga e manobras regimentais que todo mundo vê, mas se cala, o golp... plano para salvar a nação tem sido seguido à risca, nos mínimos e mais ardilosos detalhes, com o Supremo, com tudo.

domingo, 9 de abril de 2017

Hora de Dormir

                                                       
E quando apareço, sorrimos juntos...
    É meio-dia. Estou ao volante. Dou seta, reduzo a marcha e sinto o motor reverberar, produzindo um ronco maneiro. O carro está sem escapamento. Entro à direita e desemboco numa estradinha vicinal de terra batida, bem irregular, cheia de pedras. É uma subidinha capciosa. Engato a primeira e vou em frente, curtindo a vinheta de abertura de um programa de rádio, e também o barulhinho gostoso do pneu rolando sobre o cascalho solto.

    A escolinha do Zé Bigorna é hari-bô; fica no meio do mato. Se o motor do meu carro não morresse tanto eu poderia usufruir mais da estradinha. Sobre o banco do passageiro repousam duas fatias quentinhas de pão integral com um pouquinho de manteiga. Estão embrulhadas em duas folhas de papel-toalha. Quando é só uma, o farelo cai e o carro vira um formigueiro.

    A vinheta é muito boa; tem uma levada natalina que nos enche de esperança vazia e passa a sensação de que toda a inépcia da politicagem tupiniquim, no bojo, é coisa pequena que não afetará em nada nossa vida. Suas indefectíveis notas xilofônicas enlevam nosso espírito. Surge ao fundo do patrocinador, e depois se funde com a vinheta nacional, com um leve delay, aumentando a sensação inequívoca do ouvinte de estar em rede. É peculiarmente prazerosa essa sobreposição, como se fossem duas fitas magnéticas emendadas por durex, que em sua imperfeição transmitem a ideia de que, afinal, nem tudo é linear no mundo digital.

    Com menos de um mês levando e buscando Zé Bigorna na “colinha” dele, já perdi o escapamento do automóvel. Deu pra ver pelo retrovisor quando ele caiu e se acomodou às margens da estradinha empoeirada. Passei a andar bem mais devagarzinho, e quando o sujeito, em sentido contrário, passa na tora, me reto, e penso logo na hipocrisia inerente à natureza da gente, contraditória, que matricula um filho numa escola alternativa à neurose social em voga, enquanto replica em nosso mundinho perfeito o pior do modelo vigente – modus horribilis. Mas faço questão de cumprimentar a todos. Os mais velhos agradecem a distinção demonstrando aceitação à boa conduta. Os menos, muitas vezes passam com vidros e óculos escuros – as novas gerações sempre tem uma empáfia genuína quando comparadas às antecedentes.

    Entrementes, o apresentador do nosso programa atinge o limite máximo do reacionarismo suportável, tornando-se um mau carona. Desligo bem a tempo de evitar o comentarista de política - diz-se, à boca miúda, que neguinho anda trocando o chá pelo purgante, nas reuniões da ABL, só para evitar o fleumático membro. Fiquemos apenas com os cascalhinhos e o motor desregulado.

    Chegando à “colinha”, é hora de ir ter com o Bigorna. Antes de mostrar a cara, namoro, como um sujeito apaixonado, aquela linda figura, à distância. Jamais o flagrei em apuros, zangado ou choramingando, e quando apareço, sorrimos juntos. Ele corre ao meu encontro e eu o sufoco com tantos beijos e cheiros; é a coisa mais deliciosa do mundo! De repente ele se lembra de algo e suspende o dengo. Me encara com certa tensão no olhar e me segura pela barba, com as duas mãos, trazendo meu rosto para perto do dele:

    - Pão! Pão! Pão!... – clama.
    - Estão lá no carro, à sua espera, meu lindo... – E ele sorri de mostrar os dentes.

    No trajeto de volta ele pouco fala e muito come. Só não quero que ele adormeça antes de chegarmos. Quando estaciono, está quase de olhos fechados. E se zanga porque ainda troco a fralda, a roupa, lavo pezinhos e mãozinhas, e dou aguinha, antes de levá-lo à rede, embalando seus sonhos enquanto declaro meu amor.         

sexta-feira, 17 de março de 2017

A Solidão das Madrugadas

Zé Bigorna, flagrado num carpado lateral.


    O choro do bebê invade meus sonhos e dá leveza à minha cabeça, antes afundada no travesseiro. Desperto. O silêncio momentâneo engana – me reacomodo -, e o neném novamente reclama. São 2:43 a.m.

    Ao meu lado, a mãe dorme profundamente. Desde o desmame noturno, quando ela iniciou a tentativa de recuperação das horas de sono que perdera nos quatorze meses anteriores (sem contar o período da gestação), não escuta mais os choros da madrugada. O cérebro dela sabe que eu tô na parada e desliga. Me sento, dou uma suspirada conformada, procuro pelas meias ao pé da cama e saio tateando a parede, até alcançar a maçaneta da porta. As meias são fundamentais porque me dão pés de gato para escapar em silêncio.

    Entro no quarto e me aproximo do berço; só então vejo que Zé Bigorna está sentado – mau sinal -, e chorando de sono – bom sinal. Ao identificar minha voz, interrompe o choramingo para declarar sua vontade; “mamãe...”, no que emendo “tá dormindo” e, deitando-o sob lamuriosos protestos, engato uma canção inventada na hora, enquanto vislumbro meu dia seguinte esvair-se em sonolência e cansaço. Nas letras, incluo sempre seus colegas de crime (i.e., os marginais da creche), além de muita ação com a bola (que rola) e com a vovó (porque é oxítona terminada em ó). Pego de surpresa por tantas referências frescas ao seu cotidiano, ele silencia, vira-se de bruços e, antes de saber quê ou por quê, adormece. Eu também; em pé.

    A tensão para sair, em silêncio, fechar a porta, em silêncio, dar uma passadinha no banheiro e fazer xixi, em silêncio, caminhar até quarto sobre o chão de madeira que estala, em silêncio, e me deitar na cama que geme, sem acordar a mãe, em silêncio – isso é que me desperta, no que por vezes recoloco a cabeça no travesseiro quando o sono já ficou perdido pela casa. Tenho de buscar pelo nada absoluto se quiser voltar a dormir. A tática do travesseiro sobre a orelha costuma funcionar contra eventuais roncos de motor ao longe, o que indicaria a proximidade do nascer do dia. Sinto calafrios quando escuto o “baú das cinco”, que chacoalha a madrugada trazendo trabalhadores do Paranoá para o Plano Piloto.

    Quando o bebê acorda outra vez, pode se pensar que não se passaram nem 5 minutos, e em verdade foram quase duas horas. Nem mesmo havia se estabelecido, o sono é interrompido, ainda raso, dando um nó no pensamento da gente, misto de ódio e conformismo. Precipito para o quarto de Zé Bigorna. Parece que ele se espremeu na quina do berço, e isso o acordou. Mamãe me cobra há meses para transformá-lo em caminha. Ai que sono... Nunca dá tempo. Ajeito o menino cá embaixo, cubro (sinto amor), passo a mão na barriguinha e tento me lembrar como era a melodia da canção de há pouco. Não lembro. É fundamental cantar alguma coisa logo para captar sua atenção, ou o choro fica forte. Enumero então todos os nomes que me vem à cabeça e, após algumas viradas e remexidas, ele finalmente volta a dormir. Percebo que dessa vez me esqueci das meias. O piso emborrachado me faz prisioneiro. Ele se mexe ainda mais algumas vezes antes de se ajeitar num aconchego que parece ser duradouro, ressonando gostosamente. Prendo a respiração. Tiro meu pijama e faço uma trilha até a porta do quarto. Atiro a cueca no chão e pronto; liberdade!

    Volto para a cama, dou uma espiada para conferir o nível de luminosidade que entra pela porta que dá para o pátio interno, rezando para que esteja tudo muito escuro lá fora. Quando não está, vindo até acompanhada da zoada de umas maritacas, bate um certo desespero; mas que fazer? 

    A mãe continua dormindo.

sábado, 13 de agosto de 2016

Deu no THE NEW YORK TIMES: Mandatário Golpista dá Pinta no Salão

Dr. Temer achou que poderia sair do armário e passar incólume, mas o mundo todo viu...

                   
Uma semana atrás, duas personalidades brasileiras machucadas e fragilizadas pelo tempo participaram destacadamente da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro; cada uma à sua maneira. Foram elas o mundialmente conhecido cirurgião plástico Ivo Pitanguy, e o canhestramente conhecido golpista travestido de presidente, Michel Temer - que não tem votos suficientes nem para se eleger administrador do Jaburu, mas estava lá; seu nome é Trabalho.

Enquanto Dr. Ivo, entrevado numa cadeira de rodas pelas circunstâncias da existência, era aplaudido pelos populares, Dr. Michel, mumificado num sarcófago moral, era vaiado em pleno Maracanã.  Coube ao primeiro carregar a Tocha Olímpica, e ao segundo, suportar no quengo a rejeição nacional exibida em cadeia mundial. Isso porque Dr. Michel, sem ser anunciado (descumprindo bizarramente o protocolo), compareceu a uma festa para a qual sequer fora convidado. O consorte da Marcela sem sorte, porventura representando duzentos milhões de espíritos brasileiramente olímpicos, quis passar despercebido durante a celebração, embora tivesse a (usurpada) incumbência de declarar abertos os Jogos. É um gaiato...

Para um sujeito que acaba de assumir a condição de nossa última esperança antes da cubanização definitiva do Brasil, almejada por petralhas, esquerdopatas, homossexuais, feminazis e indígenas, em geral, eu não consigo compreender por que tanto temer (ops) nesse confronto com as massas. Entrementes, não era para esse cabra estar sendo carregado nos ombros do povo, rampa do Bellini acima? Não era o caso de estarmos assistindo a essa respeitada raposa política (?), incontestável liderança entre seus asseclas (??) e ilibado peemedebista (???) celebrar junto a seus compatriotas o júbilo de se realizar um evento de tal magnitude em solo pátrio, além de nos haver livrado daquele sapo barbudo bêbado e analfabeto e daquela terrorista dentuça gorda, comunista e... Mulher? Ou estou enganado?

Alguém em sã consciência colocaria a foto dele na parede (sem contar a mãe da Marcela)? Cadê as faixas de “Viva Temer”, “Temer Go” e “Agora o mundo vai nos Temer”? Ou mesmo os memes viralizantes da rede, estilo “Temer, você não é Pokémon, mas está na minha mira ;)”? Cadê as putas cabeças pensantes da cultura nacional enaltecendo nosso redentor, enlevados pelo estoicismo necrotérico daquele ser grisalho que vem ao socorro de toda a gente de Bem, a homenageá-lo em músicas, cantigas, quadros, charges, peças teatrais, panfletos, folhetos ou a desgraça que for? Cadê tudo isso, meu deus?

Ao contrário, vejo gente nas ruas sofrer arbitrariedades por parte de uma polícia decadente, apenas por protestar contra o despropósito político-institucional ora em curso no Brasil; vejo cidadãos inofensivos nas arquibancadas que explicitam o repúdio popular ao golpista sendo retirados de arenas, estádios e ginásios olímpicos como se perigosos mentecaptos fossem, à base de brutalidade, intimidação, repressão e autoritarismo. Em tempo: a justiça, na última quarta-feira, determinou que se permitissem manifestações pacíficas no Parque Olímpico.

E o que dizer do brasileiro que acreditou que “tudo isso” era, de fato, um pacto republicano e suprapartidário selado entre homens honrados e decididos a “colocar o país nos trilhos” (i.é., dar um jeito naquela corja petista)? Melhor; o que esse cidadão tem a dizer, agora que o Mandatário-mor da nação deu pinta no salão? O que esse brasileiro com muito orgulho e muito amor (e que não desiste nunca, mesmo morando em Miami) sentiu ao ver o líder dos “seres humanos direitos” pagando king-kong, passando recibo de golpista via satélite? Como explicar aos filhos pequenos que nosso Comandante-em-Chefe tem vergonha de aparecer ou falar em público, preferindo as sombras para esconder a cara azeda de mictório de boteco? Como explicar um discurso presidencial de 10 segundos, sem qualquer menção meritória à população carioca ou aos mais de 11.000 atletas que tanto se sacrificaram para que a festa ocorresse, tornando o Brasil o foco das atenções planetárias? Difícil, né?...

Meros dois dias desde então, Pitanguy já não estava entre nós. Seu gesto de levantar a tocha foi um adeus ao mundo e à vida. Morto no dia posterior e cremado no seguinte, não deixou rugas ou cicatrizes, conforme seu ofício lhe impunha. Não cheguei a lamentar, senão por não haver sido Dr. Temer a embarcar em Aqueronte, e cheguei mesmo a celebrar o fato dela – a morte – um dia abraçar a todos.

Nos espelhados corredores palacianos ou dos salões do Congresso da República, a imagem de Dr. Temer nunca se reflete. Agora, diante de uma audiência estimada em mais de três bilhões de pessoas, encarna o Mr. M e envergonha o povo brasileiro ao querer dar uma de invisível, sem magia ou encantamento, mas envolto em pura patifaria. De repente, um gesto normal para quem, no íntimo, não passa de um morto-vivo cuja alma não tardará a ser conduzida por Caronte ao esgoto História, lembrado como alguém que melhor seria se não houvesse existido. Oxalá, assim seja!

#ForaTemer

photo by Marcya Reis

sábado, 19 de setembro de 2015

Sei que Nada será como Antes


Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Fazer quarenta anos não é nada de muito extraordinário, a não ser que sua mulher o presenteie com um filho; aí, sim: você estica a boca até o limite que o sorriso pode alcançar e se sente como uma criança que ganha o melhor brinquedo que a vida poderia te dar.

Ele retribui com sete noites do cão, sem deixar que os pais descansem, durmam ou pestanejem, embora nem a tortura da vigília forçada os faça esmorecer. Nem as quatro fraldas de totô trocadas num espaço de 1hs59’34’’, em meio à interminável madrugada de choros e mamadas, os impede de, a todo tempo, dizer “que lindo é o nosso filho!”.

Ele tem a cara daquele cara que a gente já conhecia desde há tempos, mas não sabia. Ele se parece com a gente em alma – ou no dedão do pé! – e tem uma cumplicidade embutida que já vem de fábrica, turbinada. O cheiro (ahhhhhhhhhhhhhhhh, o cheiro...), a gente quer roubar todo! Aspirar cala milímetro cúbico daquele cheirinho leitoso de amor que ele exala pela boquinha, ou aquela porçãozinha de ar inocente que lhe sai às ventas, tão de batatinha como as do papai. Acariciar os pezinhos, bochechar as costinhas e dar beijinhos de esquimó. Massagear todo aquele corpinho enquanto olha para ele e pensa em como ele vai ser feliz... Ah, se vai!

A atenção vem acompanhada de um berço morninho e de palavras sempre afetuosas de carinho. Até o choro encanta. Chora bonito, gostoso; tem saúde, pulmão! Mas ao perder a noção do tempo encarando-o, pensamos no futuro dele. Não que nos preocupe a crise financeira mundial. E amor, a bem dizer, não lhe falta. Leite escorre e farta. O que preocupa é a humanidade; nossos tempos; o pensamento menor.

Meu filho veio ao mundo num momento conturbado em termos civilizatórios, tanto quanto aquele em que eu nasci, porém potencialmente mais violento, traumático, invasivo, sectário. Preocupa esse mundo que nos espiona o telefone e a correspondência, e que nos soca a cara enaltecendo novos heróis de esportes que em nada se parecem com aqueles que idolatrávamos.

Preocupa o número de vizinhos raivosos, pessoas irascíveis e amiguinhos de colégio intolerantes. Preocupa esse mundo de pouca consciência histórica e política, mas de muita atração por vampiros, zumbis, músculos, depilação e ostentação. Preocupa o mundo da aparência, do selfie, egoísta, vazio; da não-ideologia e da perda de valores - sem falar do Flamengo que há quase quatro décadas não ganha a Libertadores.

Preocupa a indústria travestir de “novos tempos” tudo aquilo que lhe seja pertinente quando o assunto são os novos hábitos de consumo. Preocupa o tecnicismo, o imediatismo, a certeza irrefletida do fascismo. Preocupa esta nova maneira de dialogar, não dialogando, cinicamente. Preocupa o aparelho eletrônico que nos conecta e nos aliena, que nos deprime e nos supre a carência, ainda que virtualmente. Preocupa o fim do namoro no sofá, no portão, de pegar na mão. Preocupa o fim do romantismo.

Ao mesmo tempo, tenho a sensação de ver brotando “musguitos en las piedras”, cheios de energia renovadora, aqui e acolá, como se um exército anárquico, colorido e transformador estivesse em processo de gestação, o qual meu filho certamente fará questão de integrar. E chego à conclusão de que tenho o papel de quem deve preparar um ser humano para fazer desta, uma sociedade afetivamente viável. Lamento por não oferecer a ele a realidade com a qual sonhei, embora ele represente para mim a certeza de que a vida apenas tenha se iniciado, e que ainda tenho todo o tempo do mundo para ver esse sonho realizado.

Seja bem-vindo, meu filho, afinal, este planeta é lindo! Os seres humanos é que são meio bobos...

foto: marcya reis

domingo, 15 de março de 2015

SOS Militares

Saudades da ditadura? Nós somos da Pátria a guarda, fieis soldados, por ela amados!... 

                                                       
Em toda a sua história, o Brasil jamais ansiou tanto por uma data como por aquele quinze de março; nem quando “conquistou” a Independência, nem quando se tornou uma República, e muito menos quando venceu sua primeira Copa do Mundo. Apesar de pontos de inflexão históricos, nenhum teve a capacidade de mobilização criada pela expectativa da iminente redemocratização do País, em 1985.

Detentor de uma barba desgrenhada com pêlos brancos à larga, bem me lembro daquela longínqua manhã. O dia amanhecera fresco, e ainda muito cedo, de roupão e calção de banho, além de muitos tremores de frio, seguia com meu pai rumo ao Parque da Água Mineral, para uma natação matinal. Apesar do meu temor pela temperatura relativamente baixa, havia algo no ar que fazia daquela experiência algo mais solene que um mero mergulhar no frio profundo daquelas águas cristalinas: dali a pouco, tomaria posse Tancredo Neves, o primeiro presidente civil em 21 anos, sepultando um dos mais vergonhosos e autoritários períodos de nossa história – o tempo das fardas lúgubres e de suas taciturnas figuras se encerrava com aquela aguardada alvorada.

Embora eu fosse um pisquila que sequer alcançara os dez anos, tinha razoável noção sobre a vida política do país, e escutava tudo o que meu pai tinha a dizer, com grande expectativa. A luta pelas Diretas, poucos meses antes, despertara a população brasileira para uma consciência cidadã coletiva, precipitando a experiência política também entre os mais jovens. Havia mais de duas décadas, a pedagogia escolar brasileira impunha às crianças a aceitação ao sistema, e nunca o questionamento, por meio de disciplinas como Organização Social e Política do Brasil ou Educação Moral e Cívica. Ao mesmo tempo, estudantes secundaristas e universitários eram presos, espancados ou mortos.

Apesar da derrota da emenda Dante de Oliveira, ganhamos no Colégio Eleitoral, poucos meses depois. E digo ganhamos porque o Brasil inteiro se fazia presente naquele plenário quando Tancredo Neves alcançou a maioria de votos, derrotando Paulo Maluf e a direita brasileira. O hino nacional, entoado na sequência, era escutado ecoando dentro e fora do Congresso Nacional, a plenos pulmões, árduas lágrimas e intensa comoção. Após ser instrumentalizado pela ditadura como objeto de um ufanismo arbitrário, o hino vinha readquirindo seu real significado desde os comícios do ano anterior. A sensação de pertencimento e orgulho nacional atingia todas as classes e (quase) todos os partidos políticos, pois, acima de tudo, havia a certeza de que o Brasil se humanizava com a redemocratização.  

Enquanto caminhávamos à beira daquela piscina natural cravada no cerrado brasiliense, era possível sentir uma atmosfera renovadora permeando todo o ambiente, em sintonia, vislumbrando os novos e bem-vindos tempos aos quais se referia Cazuza; o dia, de fato, nascia feliz! As pessoas sorriam quando se cumprimentavam; um sorriso diferente, mais leve e mais solto, que vinha lá de dentro. Ninguém falava de lado, ninguém olhava pro chão.

Foi quando um colega de meu pai veio em nossa direção e deu a impensável notícia: - Já ouviu o rádio? Parece que Tancredo foi internado às pressas; periga não haver posse...

   - Quê?!... - Meu pai ficou incrédulo e, com expressão grave, típica de quem está maquinando uma ideia, retrucou: - Isso só pode ser coisa dos milicos... Não querem largar o osso de jeito nenhum! – Motivos para preocupação havia, e de sobra...

O martírio e as incertezas perduraram pelo resto do mês, indo findar no dia dos mártires, a 21 de abril, quando a morte do ex-futuro Presidente foi anunciada. O calvário serviu para unir ainda mais a nação, que chorou como se, com Tancredo, morresse também nossa esperança de ver erigir a verdadeira democracia brasileira. O luto era amplo, geral e irrestrito.

Passados trinta anos, também em um 15 de março, parcela da população brasileira acordou imbuída de um sentimento que, dizem – e eu não consigo entender o porquê – assemelha-se ao de então. Milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra o que consideram o pior panorama político já enfrentado pelo Brasil, visando apear a “quadrilha comunista” que ocupa o “Poder”.

Para mostrar que a bagaça é real, vestiram a camisa da seleção brasileira (Nike? CBF? Ricardo Teixeira?) e foram para a rua vociferar contra o governo e o PT, mas também contra ateus, feministas, maconheiros, umbandistas, nordestinos, abortistas, haribôs, cabeludos, Karl Marx (?) e até contra o facínora corruptor de mentes juvenis, o professor e educador Paulo Freire (???). Pediam o impeachment da Dilma, além da volta da ditadura militar em cartazes escritos, vejam vocês, em inglês. Trocaram o “Yankees, go home!” pelo “Miami, here we go!” Até a suástica estava entre os emblemas ostentados pelo coro dos descontentes. E mandavam todo aquele que discordasse para a “Cuba que o pariu!”.  Tudo “em família, pacificamente”, como frisavam os jornalistas da Globo News.

Havia gente jurando que o Lula é o anti-cristo; havia gente pensando que o Aécio assumiria a Presidência, em caso de golpe; havia gente contra o aborto e a favor da pena de morte (????); havia bonecos de petistas sendo enforcados num viaduto; e também quem imaginasse que estava ali para fazer história, mostrando que é brasileiro, com muito orgulho e muito amor. Mas não havia hinos históricos que refletissem qualquer realidade social, qualquer luta ou momento relevante da história brasileira.

O que havia, em contrapartida, era um grande vazio cidadão: nenhuma periferia, nenhuma organização indígena, nenhum movimento social de base, nada de representantes das classes artística, cultural ou intelectual minimamente relevantes. As fotos, ao contrário, revelam pessoas majoritariamente brancas, felizes, bem vestidas, tomando Heineken e Budweiser, enquanto cantam o hino nacional como prova inequívoca de seu patriotismo e compromisso para com o país; uma "gente direita”, “do bem” e, sobretudo, cristã. Vislumbrando a enxurrada de imagens produzidas pela mídia, nota-se que não há a menor diferença entre os manifestantes de hoje e aqueles brasileiros que tiveram acesso aos estádios (desculpem, arenas) durante a última Copa da FIFA, pois eram todos, majoritariamente, representantes de uma única (e ultrajada) classe econômica.

Sair às ruas é, mais que um direito, um dever de todo e qualquer cidadão que almeje mudanças. Mas ignorar a história e clamar por um estado policial é o maior desrespeito que poderia haver contra a democracia e a população brasileiras. Que me desculpem os castos e bem intencionados que cerraram fileiras nos protestos, mas a essência da mensagem produzida pelos eventos deste dia 15 é das mais elitistas e mesquinhas que se poderia obter. Se o objetivo dos que protestam é aperfeiçoar o modelo democrático e exigir respeito à Constituição, então mandaram muito mal, pois sectarismo não se combate com sectarismo. A realidade, minha gente diferenciada, está bem além daquilo que se pode ver pela tela de uma TV.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Conectados e Desunidos

Quem não quer ser feliz?

Escuto no rádio que, atualmente, para conectar-se à rede, “não existe mais aquela coisa de ir ao quarto e ligar o computador que ficava sobre a mesa”, sendo “praticamente impossível encontrar alguém que não carregue o seu ‘ismartifone’, no bolso”. Você, dedicado leitor, está carregando o seu? Então, parabéns: você é um cidadão conectado, dito moderno!

Se há ainda seres primitivos que abram mão deste ente onipresente da contemporaneidade, não importa; o que realmente me intriga é saber se a dinâmica alucinante imposta pela tecnologia efetivamente nos une, além de nos conectar – coisas bem diferentes, ainda que a publicidade nos convença alegremente do contrário. Senão, vejamos...

No restaurante, olhamos à volta e percebemos que é quase impossível encontrar quem não esteja futricando seu aparelhinho. Pode ser no bolso, com o rabo do olho; apoiado no copo de suco; ou de modo explícito, como a mãe que, em vez de conversar com a filha sobre o dia na escola, empenha atenção integral ao seu telefone inteligente – manuseando-o de tal forma que a tela da engenhoca acaba substituindo a cabeça da criança em seu campo de visão, obrigando esta a almoçar olhando para a capa cor-de-rosa do mimo da mãe... Coisa bem triste de se ver.

Atmosfera de exclusão semelhante encontra o sujeito que vai buscar a caranga na oficina, e se depara com três mecânicos que, em vez de umas palavras sobre futebol, sobre a desfaçatez dos políticos brasileiros, ou um comentário libidinoso sobre a boazuda que passa, contemplam um vídeo pelo celular, num volume alto, agudo e irritante. Sem troca de olhar, sem bom-dia, nada. A experiência se resume à espera da conta, sem que nenhuma individualidade se coloque de modo atraente, sedutor, interessante ou mesmo digno, posto que indiferentes à presença alheia. O sujeito entra e sai sem ser notado, sem oportunidade de enriquecer a vida dele ou a dos outros. O videozinho viral, a putaria, a bizarrice, a fofoca, tudo estará sempre disponível, enquanto que o momento... Já passou, é único. Foi-se.

O mundo real se revela cada vez menos interessante ao indivíduo contemporâneo. Nos ônibus, nas academias, nas salas de espera ou nos encontros religiosos, esqueça as cantadas de praxe, pois ninguém terá olhos para você, preocupados que estarão em atualizar seus perfis.

Certa vez, em Sampa, numa cantina, desfrutava um desses pratos que te fazem babar só de pensar, e me divertia com minha mulher, celebrando o gastronômico instante ao tilintar de umas boas taças de vinho. De momento, percebi que, mesmo em meio a uma atmosfera romântica e aconchegante, havia casais entregues aos seus apetrechos eletro-digitais, divulgando a felicidade rede afora, a todo instante, a noite toda, sem parar... Não conversavam entre si; estavam muito ocupados para isso! Sem falar das crianças, alvos primordiais, totalmente alheias a tudo o que fosse real, vidradas em joguinhos irritantes, sempre em dolbysurround. Crianças que não sabem observar a realidade: o porvir promete fortes emoções!

Em ambientes e momentos dos mais improváveis, vê-se toda a gente aderindo sem contestação à sugestão do fabricante, plugadas full-time, como se a satisfação existencial de cada um dependesse da reiterada aprovação de seus avatares on-line. Nessa toada, uma operadora promete uma vida de constante diversão, “sem ter de se preocupar com mais nada”!...  E por acaso, nosso objetivo, individualmente, é passar o maior tempo possível alienado, exibindo nosso ego, como seres infantiloides eternamente presos à puberdade? Não lhes parece um conceito muito tosco de civilização?

Adotamos paulatinamente a tecnologia como ponto de partida e chegada das relações humanas. É como se um aparelho de última geração nos tornasse, inexoravelmente, famosos, queridos, admirados, desejados, sexies, invejados, comunicativos e, sobretudo, felizes (além de especialistas em fotos e vídeos de aventuras radicais). Mesmo não fazendo o menor sentido, os cidadãos deste século parecem acreditar nessa bazófia. Do contrário, por que alguém satisfeito com sua vida perderia tanto tempo preocupado em saber o que estão pensando dela, dando conta do que faz ou deixa de fazer, do que come, do que gosta e do que odeia? Que tipo de sociedade aceita isso como um comportamento normal, que não uma sociedade regida por aparências e carências agudas, atropelada pelo ritmo irreflexivo da atualidade? Como aprofundar-se numa relação verdadeira, se estamos afogados no raso mar do superficialismo existencial?

Acredito que o ser humano precise de tempo para processar sentimentos, contextos, situações e experiências que, de modo geral, delineiam e alimentam sua existência. Valorizo uma carta há tempos esperada, um artesanato dedicado e uma comida feita com afeto, mesmo que demorada. Não é porque a fibra ótica torna tudo mais rápido que temos de obedecer às necessidades da fibra ótica. Não faz sentido pautarmos nossas relações sociais pela impessoalidade do ritmo de produção que só interessa ao mercado. Afinal, estar atualizado significa comprar um aparelho novo a cada temporada. E viva o esgotamento dos recursos naturais planetários!

Posso “ter o mundo em minhas mãos”, mas para que? Porque, pensando bem, não quero estar eternamente plugado a nada; nem me comunicar do espaço com a Terra; ser bisbilhotado, monitorado, espionado ou classificado; dar satisfação de onde fui, com quem fui e do que fiz (nem para a minha mulher, imagine para a CIA!); ter de baixar “aplicativos grátis” para me expressar em programas de televisão, portais da internets e blogs do mundo inteiro; e, muito menos, assistir “meu programa de TV predileto, a qualquer hora, em qualquer lugar”. Enfim, não quero que um software tome conta da minha vida, intrometendo-se em meu cotidiano, por meio de gemidos, miados ou assovios, desviando e superficializando minha atenção, enquanto minha mente poderia estar obtendo e processando conhecimentos verdadeiramente orgânicos.

Quanto mais rápido o gado é tocado, menos ele reflete sobre seu destino, no matadouro. O que me lembra essa gente esbaforida que se atropela por  um simples computador, para concluir que definitivamente meus pais não me educaram para este mundo; eles jamais imaginaram que a vida fosse se tornar tão irracional.


foto&arte de joão sassi